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Por César Guimarães

Não é tão difícil entender o que é a cultura do estupro ou mesmo investigá-la no decorrer da história ocidental. Em nossa tradição judaico-cristã o estupro é comumente referido como um crime contra o patrimônio (do pai ou marido).

Em Deuteronômio (22:28,29)[i] atribui-se como pena ao estuprador da virgem solteira a obrigação de se casar com ela e o pagamento de cinquenta siclos de prata ao pai. Hoje seria no mínimo esquisito que um pai aceitasse “transferir a propriedade” de sua filha ao estuprador, mesmo com a recompensa econômica; apesar de vários de nossos legisladores ainda insistirem que uma eventual gravidez deva ser levada a cabo.

O historiador Robert Darnton[ii], em artigo publicado em 1997, analisou o relato de um artesão francês onde ele se gabava, de forma pretensamente humorística – um precursor do Danilo Gentili -, de seus estupros no século XVIII, associando o estupro a uma noção da fraternidade (masculina), um ideal da Revolução Francesa. Os relatos (verbais e filmográficos) nas redes sociais (com várias curtidas e comentários de apoio) do recente estupro coletivo no Rio mostram que esse imaginário do estupro como fraternidade ainda persiste (leia mais aqui).

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Coube ao feminismo, no século XX, politizar o estupro, caracterizando-o como um crime de gênero e desmistificando o caráter patológico e de exceção da violência contra a mulher. Susan Brownmiller[iii] concluiu que o estupro é parte integrante do patriarcado, uma manifestação de poder que é recorrente na história das guerras de conquista de território e até nos casamentos. A autora vai demonstrando como, em nosso imaginário, é construída a imagem da mulher responsável pelo próprio estupro (algo que também se leu frequentemente nesses dias).

Logo, reconhecer a existência de uma cultura do estupro não é só uma questão teórica e intelectual, é parte da prevenção.

Rape_rates_per_100000_population_2010-2012,_world

Taxa de Ocorrência de Estupros por 100.000 habitantes (escala à esquerda). Para acessar a fonte, clique na imagem.

Infelizmente, vários de nossos “brilhantes” parlamentares insistem na tese de que todo conhecimento científico e filosófico sobre gênero é, na verdade, uma ideologia e que aqueles que levam essa discussão para as salas de aula são doutrinadores “esquerdopatas“.

Em todos os níveis de governo (municipal, estadual e federal) multiplicam-se “Projetos de Lei” que proíbem o ensino da ciência e da filosofia de gênero. Da minha parte está decidido: passar a velhice na ilegalidade é bem mais emocionante do que passá-la na cadeira de balanço.

Toronto-Slutwalk

Primeira SlutWalk em Toronto, Ontário (Canadá) em 3 de abril de 2011. A organização das mulheres gerou esta passeata em resposta às afirmações do comandante da polícia da cidade a um estupro no campus da Universidade de Toronto. A autoridade disse que as mulheres deveriam evitar “andar vestidas como vagabundas” para diminuir a chance de serem atacadas.

 

César Guimarães é Bacharel em Administração (EAESP-FGV), Mestre em Administração na área de Recursos Humanos (FEA-USP), Doutor em Psicologia na área de Psicologia Social (IP-USP) e professor do Centro Universitário FECAP. Contribui irregular e brilhantemente com O Barômetro.

[i] https://www.bibliaonline.com.br/acf/dt/22

[ii] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs060706.htm

[iii] https://en.wikipedia.org/wiki/Against_Our_Will

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