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Por Paulo Roberto Trajano

Nos tempos atuais, não é difícil encontrar exemplos de debates políticos que excederam os limites da civilidade. Também não faltam exemplos de relações rompidas a partir de divergências originadas na diversidade das posições políticas. Então, a pergunta que este artigo traz induz a duas provocações – há diferença entre direita e esquerda? Como fazer um debate civilizado entre esses polos?

O caminho escolhido para responder a essas provocações resgata as ideias do acadêmico norte-americano Jonathan Haidt, expostas em seu livro “The Righteous Mind – why good people are divided by politics and religion”.

De acordo com Haidt, a espécie humana evoluiu desde os tempos pré-históricos com o desenvolvimento de cinco grupos de valores. Esse valores serão melhor detalhados a seguir, e podem ser associados ao cuidado, à justiça, à lealdade, à autoridade e à santidade.

 

Os valores relacionados ao cuidado evoluíram no homem a partir das medidas adotadas para a proteção de sua cria, ou seja, no cuidado com as suas crianças. Esses valores, dentro da evolução do homem até o mundo contemporâneo, além de guiar as ações de proteção dos pais em relação aos seus filhos, são também responsáveis pelos impulsos de ajuda aos mais necessitados e aos fragilizados. E o fator que representa a oposição a esses grupo de valores é a ameaça.

Os valores identificados com a justiça se desenvolveram no homem a partir da necessidade do ser humano cooperar mutuamente, e evitar a exploração por parte de um semelhante. Ao longo das civilizações, esses valores foram importantes para identificar, dentro de uma comunidade, se um indivíduo é capaz de colaborar e agir de forma altruísta se assim for tratado, e punir os trapaceiros ao sistema. Como oposição a esses valores, o fator identificado é a trapaça.

O grupo de valores que corresponde à lealdade teve sua evolução a partir da formação de grupos e da experiência humana nessa vivência. A utilização desses valores sempre esteve ligada à avaliação do indivíduo enquanto membro do grupo, e das decisões de retaliação dos indivíduos que forem identificados como traidores do grupo. Nesse sentido, o fator que se opõe a esses valores é a traição.

O quarto grupo de valores descrito por Haidt está relacionado à autoridade. Sua evolução ocorreu a partir das relações derivadas da hierarquia social. Os valores relativos à autoridade levam em consideração o status e as suas sinalizações, e são utilizados para identificar se o indivíduo se comporta de acordo com a sua posição na hierarquia social. O fator de oposição a esses valores é a subversão.

O último grupo está identificado com a santidade. Esses valores sofreram uma evolução biológica a partir da necessidade do corpo humano, por meio de seu sistema imunológico, de se proteger em um ambiente hostil, infestado de agentes patogênicos e parasitas. Assim, embora a razão inicial fosse a prevenção de doenças, os seres humanos evoluíram de forma a atribuir a alguns objetos e rituais valores extremos e mesmo irracionais. Esses valores foram classificados na esfera do sagrado quando a valoração atribuída era positiva, ou classificados na esfera do degradante, quando a valoração atribuída era negativa.

À medida que as civilizações evoluíram, esses valores se revelaram importantes como elemento de união de grupos de pessoas, em torno de religiões, rituais e objetos sagrados. O fator que se opõe a esse grupo de valores é a degradação.

Apresentados os valores que acompanharam a humanidade em sua evolução, você deve se perguntar – onde entram a direita e a esquerda nessa conversa? (Vide infográficos ao final)

Os experimentos realizados explicam. Haidt aplicou milhares de questionários e realizou algumas séries de testes empíricos para avaliar como as pessoas se relacionavam com esses valores, e se essas mesmas pessoas se identificavam com os discursos e propostas vinculadas à direita ou à esquerda do espectro político.

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Descobriu-se que as pessoas que se identificam com a esquerda são mais sensíveis a dois desses grupos de valores – cuidado e justiça –, e são praticamente insensíveis aos valores ligados a lealdade, autoridade e santidade. Por sua vez, os indivíduos que se identificam com a direita não fazem distinção entre os grupos de valores, e são afetados por todos esses cinco grupos de maneira equivalente.

E essa sensibilidade aos valores é carregada para os debates públicos.

As pessoas mais à esquerda colocam mais relevância em seus argumentos para as questões relacionadas à justiça social e o cuidado aos necessitados, enquanto os indivíduos mais à direita trabalham com um grupo mais amplo de valores, envolvendo todas as categorias.

Então, apesar de as pessoas de direita considerarem a justiça e o cuidado, elas não reconhecem esses valores de justiça e cuidado como mais relevantes que os valores de santidade, na figura, por exemplo, da moral religiosa, ou mais relevantes que a lealdade a seus grupos socioeconômicos, ou mais relevantes que os valores de autoridade, como os valores que sustentam a manutenção de privilégios de classe que são capazes de lhes conferir status, para citar outro exemplo.

Como os indivíduos da esquerda não atribuem relevância aos outros valores que não são justiça e cuidado, o debate público entre as duas esferas torna-se truncado e difícil.

Destravar esse debate requer a compreensão e identificação, por parte de ambos os lados, de elementos comuns para um entendimento.

Paulo Roberto Trajano é mestre em economia pela PUC-SP e funcionário público federal.

 

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