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Por Rodrigo Medeiros

A eventual saída do Reino Unido da União Europeia (UE) é um tema que vem merecendo uma boa cobertura na imprensa internacional. O assunto em questão não se restringe ao debate racional, pois existem conteúdos emocionais nessa complexa discussão. Não pretendo esgotar o tema nas próximas linhas. Apresentarei logo abaixo duas visões qualificadas sobre o assunto.

BREXIT_JUN2016

Para o professor Robert Skidelsky, em artigo publicado no “Project Syndicate” [1], a União Europeia nunca foi muito popular entre os britânicos e o referendo do dia 23 de junho mostrará se a vontade geral desejará permanecer ou sair. Ao longo dos anos, o foco do debate britânico sobre a Europa se deslocou. Durante as décadas de 1960 e 1970, a questão era saber se seria efetivamente possível não se juntar à Comunidade Econômica Europeia. Havia então o medo de que o Reino Unido ficasse de fora de um mercado tão importante e que a parceria com os Estados Unidos estaria em risco. Naquele tempo, o debate girava em torno do fortalecimento do Reino Unido.

Recentemente, o debate se deslocou para o campo do enfraquecimento da Europa. Os britânicos enxergam que estão comparativamente bem, enquanto a Europa vai mal. Desde o crash de 2008, a União Europeia foi identificada como um fracasso. Fora do Reino Unido e da Alemanha, praticamente não tem havido crescimento econômico e as instituições da União Europeia carecem de legitimidade. De acordo com Skidelsky, “composta por 28 membros quase soberanos, a UE não pode agir, mas apenas emitir intenções de agir”. Nesse sentido, deve-se notar que há um movimento em andamento para se recuperar a soberania nacional, onde alguns poderes de decisão ainda residem.

O destino da UE ficou aprisionado ao seu elemento mais vulnerável: a zona do euro, uma zona de estagnação econômica. Para as autoridades em Bruxelas, a zona do euro é a União Europeia e essa não é a visão britânica. Ademais, imaginou-se no passado que seria possível alcançar uma união política de forma incremental. Na verdade, havia na expectativa do “projeto europeu” a visão de que as crises sucessivas demandariam a integração política.

Não se confrontou a hipótese de que as crises teriam o efeito contrário, levando à dissolução da união econômica e monetária. Para Skidelsky, “a zona do euro enfraqueceu os Estados-nações que a compõem, sem que fosse criado um Estado supranacional para substituir as competências que os seus membros perderam”.

Outra visão que considero relevante sobre o referendo do dia 23 de junho vem de Martin Wolf, comentarista-chefe do jornal britânico “Financial Times” [2]. Wolf é contra a saída. Em síntese, “se o Reino Unido votar por abandonar a União Europeia, o país quase certamente ficaria excluído para sempre do arranjo que organiza a vida de nossos vizinhos e principais parceiros econômicos”. Um exemplo favorável à permanência é uma estimativa do Centro pela Reforma da Europa, que indica que a participação na União Europeia aumentou em 55% o comércio entre o Reino Unido e os países membros, elevando a produtividade e a produção.

Do ponto de vista político, Wolf destaca que “os países membros discordam quanto a muitas coisas, o que abre espaço para que o Reino Unido exercite sua influência”. Reduzir o acesso aos mercados da União Europeia faria sentido se a participação impedisse o Reino Unido de negociar com o resto do mundo, o que não é o caso.

Segundo Wolf, “em termos gerais, quanto mais soberania o Reino Unido quiser retomar, menor o acesso preferencial que reterá”. As elites políticas da Alemanha e da França encaram o projeto europeu como uma questão de interesse estratégico. Elas poderiam mostrar que a saída tem custos elevados, algo que poderia incluir logo adiante esforços para tirar de Londres os mercados financeiros relacionados ao euro.

Skidelsky e Wolf têm preocupações com os funcionamentos da eurozona e das instituições da União Europeia. No entanto, ambos são favoráveis à permanência do Reino Unido na União Europeia. Afinal, quais seriam os desdobramentos da Brexit? A incerteza seria generalizada e em um contexto chamado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) de um “novo medíocre” em termos de expectativas de crescimento global, é preciso ter cautela nas decisões domésticas.

Rodrigo Medeiros é professor de Economia do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes).

Notas:

[1] SKIDELSKY, R. A British Bridge for a Divided Europe. In: https://www.project-syndicate.org/commentary/british-bridge-for-divided-europe-by-robert-skidelsky-2016-04

[2] WOLF, M. Mitos e fantasias nos argumentos em favor da saída britânica da UE. In: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/martinwolf/2016/04/1765161-mitos-e-fantasias-nos-argumentos-em-favor-da-saida-britanica-da-ue.shtml

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