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O Reino Unido decidiu abandonar o longevo projeto franco-germânico de unificação de uma Europa beligerante e historicamente instável. Foi uma decisão de longo prazo baseada em sentimentos de curto prazo.

Em termos gerais, a população britânica mais velha dominou a votação a favor da saída. Os argumentos a favor desta não eram muitos e baseavam-se, em sua maioria, em efeitos da recessão europeia que destrói empregos e faz a população depender mais do Estado. Neste contexto, é comum nascerem sentimentos nacionalistas (figura abaixo) que criam um “espantalho” de ocasião: Bruxelas, sede do Parlamento Europeu.

Brexit_on_leash

 

O problema da imigração é um apelo localizado dos setores mais conservadores e não tem nada a ver com a crise no oriente médio, mas com imigrantes do centro-leste europeu que buscam na Grã-Bretanha melhores oportunidades econômicas e o sistema de bem-estar social do país.

Esta votação está longe de ser explicada por generalizações fáceis e monocromáticas. Ela não é resultado do “domínio fascista” sobre a Inglaterra, nem da granulação do sentimento de união europeia. Suas causas são muito diversas, por demais complexas e demasiado longevas e sobrepostas para uma simplificação de fácil entendimento.

Como não sou um experimentado analista das questões europeias, gostaria apenas de salientar dois pontos acerca da heterogeneidade por trás deste referendo (aqui você pode ler a opinião do Prof. Jésus Lisboa sobre o mesmo assunto).

 

Britocracia e Gerontocracia

Dentro do Reino Unido (mais detalhes aqui), o mapa da votação mostra a prevalência da vontade britânica. O País de Gales (a oeste da ilha) votou com a Inglaterra e a Irlanda do Norte apresenta uma divisão com viés a favor da permanência.

Mapa_votacao_Brexit

Por outro lado, já se fala em permitir à Escócia escolher se deseja permanecer na União Europeia, haja vista a maciça votação pró-permanência daquele país (parte amarela ao norte, no gráfico acima). Duvido que a Inglaterra facilite nesse ponto. Primeiro, lembremo-nos dos já demorados debates sobre a separação deste país do Reino Unido; em segundo lugar, as difíceis negociações comerciais com a União Europeia que se estenderão uma vez oficializado o abandono da União Europeia imporão alguma dificuldade econômica de curto prazo à Inglaterra. Dificuldade essa aliviada pela presença da Escócia. Aguardemos o desenrolar desta questão.

O segundo ponto diz respeito à distribuição etária dos votos. Note que os mais velhos votaram majoritariamente pela saída (coluna “EXIT” na tabela abaixo). Resultado oposto se notou para faixas de idade mais baixas (coluna “REMAIN”). Os efeitos duradouros deste pleito recairão sobre aqueles que se opuseram à saída: os mais jovens (18-24 anos) terão de viver, em média, mais 69 anos com esta decisão (última coluna à direita).

Age_distr_Brexit

Fruto dos amplos ganhos de bem-estar promovidos pela massificação da alimentação, dos hábitos de higiene e da tecnologia da saúde, a elevada expectativa de vida tornou a democracia britânica refém da “gerontocracia”, isto é, o governo dos mais velhos.

É importante lembrar que o Reino Unido só aderiu à União Europeia em 1973, ou seja, quando o bloco já se aproximava de sua terceira década de existência no pós-Guerra. Portanto, esta iniciativa não é, definitivamente, fruto do protagonismo geopolítico britânico. Isto talvez pese no coração daqueles que viveram os resquícios ainda vibrantes de um passado glorioso em que o Império Britânico espraiava seus tentáculos por todos os continentes.

O país das tradições e dos costumes arraigados optou por reviver o passado, após ensaiar colocar um pé (bem tímido) no futuro do Velho Continente.

Leitura Adicional: A Revista The Economist vem apresentando análises muito ricas sobre este processo. O semanário não se propõe a ser imparcial. É claramente contra a saída, mas tem buscado oferecer subsídios aos dois lados da controvérsia. Aqui você encontra o editorial da revista após a decisão de ontem: Uma trágica Separação, disponibilizado pelo antenado blog Economia – Teoria e Prática, do Prof. Ewerton de Souza Henriques, mestre em Economia pela PUC-SP.

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