Por Rodrigo Medeiros

Em 1997, Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard, publicou um livro cujo título é “A globalização foi longe demais?”. Desde então, já havia uma percepção generalizada de que as desigualdades de renda e patrimônio eram crescentes em muitos países e que tal fato poderia colocar em risco a estabilidade democrática dessas sociedades.

Pouco tempo depois, Rodrik desenvolveu a tese do “trilema” (teorema da impossibilidade), que sustenta que democracia, soberania nacional e integração econômica global são mutuamente incompatíveis; podemos combinar duas dimensões, mas nunca todas as três simultaneamente e completamente. Em 2002, o célebre economista Joseph Stiglitz publicou um livro chamado “A globalização e os seus descontentamentos”. Após o crash mundial de setembro de 2008, outros acadêmicos aprofundaram análises relevantes sobre o mal-estar da globalização.

Creio, portanto, que a recente decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia deve ser analisada a partir de uma perspectiva mais ampla no tempo e que ainda é cedo para se enxergar as suas mais variadas e complexas repercussões. Entretanto, alguns desdobramentos mais recentes merecem atenção e preocupação. Segundo divulgou a “BBC Brasil” (24/6/2016), “analistas afirmam que a saída do Reino Unido pode causar um efeito dominó que pode ameaçar todo o bloco. Após o anúncio do resultado, nesta sexta-feira, bolsas internacionais abriram em queda e a libra esterlina atingiu seu menor valor em décadas”.

O resultado no Reino Unido gerou uma onda de pedidos da parte de políticos da extrema-direita por plebiscitos semelhantes em outros países do bloco (França, Holanda e Itália). Nicola Sturgeon, primeira-ministra escocesa, afirmou logo após o resultado que um segundo referendo pela independência da Escócia está “em cima da mesa”. Em declaração pública, Sturgeon lamentou o resultado do referendo, no qual 52% apoiaram o “Brexit”, assegurando que fará o possível para manter a Escócia na União Europeia. Ao contrário de Inglaterra e Gales, a Escócia votou majoritariamente a favor da permanência.

O resultado mostrou ainda outra divisão no Reino Unido: entre os eleitores de 18 a 49 anos venceu a opção pela permanência e o resultado foi favorável à saída a partir dos 50 anos. Há quem diga, com alguma dose de exagero, que as memórias da Segunda Guerra se manifestaram e que, portanto, a Europa sob a hegemonia germânica será inaceitável para os europeus. Ainda é bem cedo para as certezas, mas já existem bons diagnósticos sobre o mal-estar da globalização.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

Leituras recomendadas:

ROGOFF, K. Britain’s Democratic Failure. In: https://www.project-syndicate.org/commentary/brexit-democratic-failure-for-uk-by-kenneth-rogoff-2016-06?referrer=/cpeVhXJkvs

VAROUFAKIS, Y.Brexit and Spais: Interviewed by El Diario. In: https://yanisvaroufakis.eu/2016/06/25/brexit-and-spain-interviewed-by-el-diario/

WOLF, M. Brexit will reconfigure the UK economy. In: https://next.ft.com/content/29a7964c-3953-11e6-9a05-82a9b15a8ee7

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