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Em primeiro lugar, admito que estava ao lado dos 99% dos analistas que acreditavam ser muito improvável a vitória de sim no plebiscito. Incluindo nesse grupo o Primeiro Ministro Britânico David Cameron, que via no plebiscito uma forma de se fortalecer como líder e mostrar o comprometimento da Grã-Bretanha com o projeto de integração europeu.

O plano deu muito errado. A reação do David Cameron quando percebeu o resultado deve ter sido algo como a figura abaixo.

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Em seguida, aceitou a derrota, anunciou a renúncia e abriu caminho para formação de um novo governo. Esse tipo de barbeiragem política é comum em livros de histórias quando analisados ex-post, mas raramente presenciado ao vivo e identificado pelas consequências tão evidentes. Internamente, serviu para despertar os movimentos separatistas na Irlanda, Escócia e Gibraltar que se sentem traídas pelo resultado. Ao mesmo tempo em que instiga movimentos eurocético no continente como, por exemplo, Holanda, França, Itália, Alemanha entre outros[1].

Não sabemos quem formará o novo governo. Já que os partidos conservador e trabalhista passam por profunda crise de legitimidade e afastamento da sua base eleitoral.

O ponto que chama a atenção não é o Brexit em si, mas sim os motivos que levam os eleitores britânicos estarem descontentes. Algo que se repete em outros países do bloco que demostra insatisfação e rejeição ao modelo atual de integração. Podemos citar três elementos.

O primeiro que o modelo de integração se baseia em um tecnicismo-elitista-tecnocrata que se afasta das demandas das populações locais. Isso é verificável na condução da política monetária pelo Banco Central Europeu, a austeridade fiscal como solução padrão, regulamentação e normas comuns que são impostas.

O segundo que existe um déficit democrático nas decisões do bloco. A imagem passada é que “se aceita como a UE como está ou será punido e expulso”. É o discurso que foi vendido para a periferia europeia durante as crises de 2007/2008 e os ajustes que se seguiram. Inclusive compreendendo intervenções brancas na política local para suporte de certos partidos e ameaças veladas caso outros grupos políticos fossem eleitos.

O terceiro que houve uma reorganização do mercado de trabalho, oferta de serviços e bens públicos. Os afetados foram os nativos e imigrantes estabelecidos nos países mais desenvolvidos, cujos salários caíram e perderam vantagens que possuíam, especialmente os trabalhadores de menor renda e educação. Indiretamente, originado da austeridade e recessão nos países menos desenvolvidos, somados abertura do mercado de trabalho com nivelamento para baixo acompanhado da degradação das condições de vida e redução de renda.

Existe um ambiente favorável para que grupos eurocéticos ganhem apoio e votos nos países do bloco. A resposta comum é mais nacionalismo e ceticismo. Seja a direita nacionalista e populista ou a esquerda mais radical. Ao mesmo tempo em que fornecem soluções mágicas e um culpado claro que é a União Europeia e a imigração. Uma estratégia que possui apelo forte na Inglaterra por oferecer melhores condições de trabalho e assistência social do que os países da eurozona e UE. Assim, especialmente nos últimos anos, atraindo imigrantes que sofreram impactos negativos da crise nos países do continente. Os grupos mais radicais, especialmente os da direita populista, se aproveitam da passividade dos políticos do establishment em dar soluções ou propor reformas.

Os políticos moderados a direita e esquerda que de fato podem chegar ao poder passaram a defender reformas nos últimos anos, buscando legitimidade e reduzir o fosso existente com seus eleitores. Ainda que sejam movimentos tímidos e de pouca efetividade, indicam um viés de mudança e ganham força. As promessas de reformas apareceram em vários episódios.

A eleição do Holland na França durante o auge da crise econômica era a esperança de mudanças. Apesar de ministros falarem da necessidade de reformas, não avançou além da retórica vazia. Algo que ajudou a implodir os índices de popularidade do político francês.

A crise grega poderia ser o ponto de mudança, quando Aléxis Tsípras venceu as eleições e enfrentou os burocratas europeus. O problema que foi obrigado a recuar devido ao tamanho da Grécia e não obter apoio de outros países do bloco. Hoje, se manifesta sobre que o Brexit como fruto das deficiências da UE e chama a atenção pela necessidade de mudança de rumo.

 “Nova visão, não uma com menos Europa, nem com uma Europa mais autoritária e centralizada, mas mais democrática” (Alexis Tsipras)[2]

O líder do PODEMOS, Pablo Iglesias, e outros membros do partido declaram posições similares chamando a atenção para descontentamento em relação ao projeto atual da UE[3].

Obviamente, cada país da UE possui um sistema política próprio e forma de se obter a governabilidade. A tendência é eu os grupos mais críticos ao modelo de integração atual ganhem força e poder de influência na formação de novos governos. Por que o eleitor mediano está descontente seja nos países periféricos ou centrais.

E, agora, aguardemos o que acontecerão nas próximas eleições europeias e os novos plebiscitos que surgirão. Ou, quem sabe, tenha sido o chocalhão que a UE precisava para mudar[4].

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NOTAS:

¹Artigos de autores importantes: Carmen Reinhart; Ricardo Hausmann; Harold James; e Thomas Piketty. As quatro análises são bem mais amplas do que meras arguições conjunturais e avançam para entender o que significa em termos de globalização e modelo de integração europeu sobre Brexit.

REINHART, Carmen. Brexit’s Blow To Globalization. In: Project Syndicate. Publicado em: 30 jun. 2016. Disponível em: < https://www.project-syndicate.org/commentary/brexit-blow-to-globalization-by-carmen-reinhart-2016-06?referrer=/Dn1aEAAJZZ > Acesso em: 01 jul. 2016.

HAUSMANN, Ricardo. Football, Brexit, and Us. In: Project Syndicate. Publicado em: 30 jun. 2016. Disponível em: < https://www.project-syndicate.org/commentary/brexit-power-of-national-identity-by-ricardo-hausmann-2016-06> Acesso em: 01 jul. 2016.

JAMES, Harold. The Brexit revolt. In: Project Syndicate. Publicado em: 24 jun. 2016. Disponível em: <https://www.project-syndicate.org/commentary/brexit-revolt-eu-establishment-by-harold-james-2016-06 > Acesso em: 01 jul. 2016

PIKETTY, Thomas.  Thomas Piketty: “Nacionalismo e xenofobia são a resposta mais fácil diante das desigualdades”. In: El Pais. Publicado em: 03 jul. 2016. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/01/internacional/1467386507_999162.html?id_externo_rsoc=FB_CM> Acesso em: 03 jul. 2016.

O artigo sobre o projeto de integração que trata do déficit democrático na condução da UE.

DAYEN, David. Who’s to Blame for Brexit? The Elites. In: The American Prospect. Publicado em 24 jun. 2016. Disponível em: < http://prospect.org/article/whos-blame-brexit-elites > Acesso em: 25 jun. 2016.

²Para entender situação é importante ver a realidade e ouvir quem está envolvido para identificar os problemas e construir um modelo para análise. No caso do Brexit, recomendo os vídeos de um imigrante no Reino Unido que foi diretamente afetado pela organização do mercado de trabalho europeu e regulamentações comuns.

https://www.youtube.com/watch?v=1ueCzE3flSQ

ttps://www.youtube.com/watch?v=BdqFzG-NYb4

³Li muitos posts no facebook tentando encaixar o brexit como uma guerra entre esquerda vs direita (ou mortadela vs coxinhas). Não pode ser encarado nesses termos. Os elementos são complexos e passam pelo ceticismo sobre globalização, modelo de integração regional e, principalmente, a crise de legitimidade da classe política para representar o eleitorado.

Isso também não é questão da guerra na economia entre  heterodoxia vs ortodoxia. A maioria dos autores que trabalha com macroeconômica internacional, setor público e política fiscal entre outras áreas vai apontar “n” problemas no projeto de integração que precisam ser alterados. No entanto dependem de decisões na esfera política, acomodação de interesses e legitimidade discutir os temas e propor mudanças. A receita de austeridade é política e não econômica, aceito por ser uma forma de não precisa alterar outros aspectos estruturais que estouram na política fiscal como, por exemplo, regulação dos fluxos de capitais, reforma do mercado de trabalho e subsídios industriais e agrícolas.

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[1]A amostra da comemoração dos eurocéticos de direita e mais populistas < http://www.dw.com/pt/euroc%C3%A9ticos-comemoram-brexit/g-19352419 >

[2] Entrevistas de Alexis Tsipras sobre Brexit e problemas do modelo de integração

< http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/premie-grego-diz-que-brexit-revela-necessidade-de-mudanca >

< http://www.dci.com.br/internacional/tsipras-atribui-brexit-a-deficiencias-na-lideranca-da-ue-id557365.html >

[3] < http://www.elmundo.es/espana/2016/06/24/576cf925e2704e3d748b45da.html >

[4]Um artigo português sobre o tema e que mostra esperança da “chacoalhada” venha < https://www.publico.pt/mundo/noticia/o-brexit-pode-ser-o-abanao-de-que-a-europa-precisa-1736210?page=-1 >

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