Por Rodrigo Medeiros

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Na edição de 25 de junho de 2016, a revista “The Economist” traz um relatório especial sobre Inteligência Artificial (AI, em inglês). O tema em questão mostra sua relevância pelos prováveis efeitos da automação a serem sentidos nos mercados.

Segundo consta no respectivo relatório, “a automação poderá ter um impacto muito maior nas economias em desenvolvimento do que nos países ricos”. Afinal, há o risco de que a crescente automação poderá negar aos países de baixa ou média renda a oportunidade para o desenvolvimento através da industrialização.

Alguns economistas falam de “desindustrialização prematura”. Dani Rodrik, da Universidade de Harvard, observa que o emprego industrial na Grã-Bretanha atingiu um pico de 45% pouco antes da Primeira Guerra Mundial, mas já atingiu o pico no Brasil, Índia e China, com uma participação de não mais de 15%.

Os processos de fabricação industrial estão muito mais automatizados do que costumavam ser. A China, por sua vez, já ultrapassou os Estados Unidos como o maior mercado de automação industrial. Nesse contexto global, a automação industrial poderá significar que outras economias emergentes encontrarão maiores dificuldades no crescimento econômico e terão de encontrar novos modelos de desenvolvimento.

Sem os empregos na indústria de transformação para construir uma classe média, observa Tyler Cowen, da Universidade George Mason, esses países “podem ter elevada desigualdade de renda em suas estruturas econômicas fundamentais”. São os países ricos que se preocupam mais com os efeitos da automação sobre a educação, o bem-estar e o desenvolvimento. Os formuladores de políticas públicas nos países em desenvolvimento deveriam estar mais atentos ao assunto.

Entre nós, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) disponibiliza, em página digital, o potencial de “indústrias criativas” espalhadas pelo Brasil (por unidade federativa, município e segmento). A importância do aprofundamento das políticas públicas nesse campo se deve ao fato de que o trabalho criativo é mais difícil de ser automatizado, pois ele é composto por muitas atividades cognitivas não rotineiras.

A “questão das máquinas” foi objeto de atenção do economista clássico David Ricardo, em 1821, ao dizer respeito à influência das máquinas sobre os interesses das diferentes classes da sociedade. Essa análise entendia que a opinião da classe trabalhadora era de que o emprego de máquinas seria frequentemente prejudicial aos seus interesses. O retorno desse debate se deve aos avanços da Inteligência Artificial, que permitem com que as máquinas realizem tarefas que anteriormente podiam ser feitas apenas por seres humanos. Seu impacto poderá ser profundo, pois a Inteligência Artificial ameaça os trabalhadores cujos empregos pareciam impossíveis de serem automatizados. Existem ameaças, mas também oportunidades.

Previsões de que uma crescente automação farão os humanos redundantes já foram feitas antes. Entretanto, a tecnologia acabou criando mais empregos do que destruiu. No geral, é possível dizer que automatizar tarefas para que elas fossem feitas mais rapidamente e eficientemente aumentou a procura por trabalhadores para a realização de outras tarefas próximas (ecossistemas circundantes). Ainda que as comparações com o passado sugiram cenários não tão sombrios, o futuro é incerto e ele dependerá do que for feito e desejado pelas pessoas. Não há como negar que existem relações assimétricas de poder nas sociedades e que o mal-estar da globalização integra esse complexo quadro histórico de desafios coletivos.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

 

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