A publicação do artigo de Felipe Rezende, no jornal “Valor Econômico” (04/08/2016), vem provocando um bom debate em nosso país. O autor afirma, logo no início do seu texto, que “a atual crise econômica é em grande parte agravada pela falha de diagnóstico compartilhada por grande parte dos economistas do país” e que “superá-la depende da correta avaliação das suas causas”. Vejamos brevemente alguns aspectos dessa tese.

Rezende analisa a crise a partir da perspectiva minskyana, apontando a crescente fragilidade financeira do setor privado. Segundo Rezende, “dados do IBGE mostram que, desde 2007, ­ exceto por 2009 em função dos efeitos de uma política fiscal anticíclica ­ as empresas não financeiras obtiveram déficits crescentes em suas contas, isto é, os lucros retidos foram menores que os investimentos”. Para o economista, “o setor privado doméstico brasileiro, em particular as empresas não-financeiras, adotou uma postura Ponzi desde 2007”. Essa postura, conforme Minsky ensinou, é insustentável.

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Em um contexto de crescimento do endividamento de firmas e famílias brasileiras a partir da conquista do grau de investimento, considerando-se ainda as condições favoráveis de liquidez internacional e os preços de então das commodities, “o total da dívida em moeda estrangeira das empresas não financeiras saltou de US$58 bilhões em março de 2008 para US$118 bilhões em junho de 2015”. Déficits primários são a regra global e deverão permanecer assim por mais algum tempo. Portanto, considerar o que vem ocorrendo na economia global, inclusive as complexas dificuldades de transição na China, é algo necessário.

Gráfico FMI (resultado primário de países, abril)

Com produtividade declinante e envelhecimento nos países desenvolvidos, as perspectivas econômicas medíocres para o médio prazo já afetam a demanda e o crescimento. Olivier Blanchard afirma que o efeito de histerese afetou o crescimento potencial. Ele aponta ainda para o sentido da causalidade entre expectativas e gastos quando as “más notícias” sobre o futuro potencial de crescimento conduzem à recessão. Quando as firmas percebem que as perspectivas econômicas são piores do que pensavam, elas cortam investimentos. Os consumidores, por sua vez, reduzem o consumo quando percebem que as suas perspectivas de renda pioraram.

Houve um rápido ajuste das contas externas em 2015 no Brasil, que, em parte, pode estar sendo revertido com a valorização cambial do real neste ano. De acordo com o professor José Oreiro, “o tripé macroeconômico – o regime introduzido em 1999 que combinava metas de inflação, câmbio flutuante e expressivos superávits primários – se mostrou historicamente incapaz de lidar com dois problemas da economia brasileira, o crescimento da despesa primária como proporção do PIB e a incapacidade de se manter a taxa de câmbio num nível estável e competitivo no médio prazo”. O professor e ex-ministro João Sayad, no livro “Dinheiro, Dinheiro” (Portfolio Penguin, 2015), levanta a hipótese de que “o regime de metas de inflação gera instabilidade. Aumenta a inflação, sobem os juros. A inflação cai, mas a taxa de câmbio também. No curto prazo, um ano, o resultado é favorável, mas num prazo maior o balanço de pagamentos se desequilibra”.

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Desde o início do processo que visava a “recuperação” da confiança, não acreditei que seria algo rápido e fácil de realizar. Afinal, desde meados de 2014, os preços internacionais das commodities, que representam aproximadamente dois terços das exportações brasileiras, caíram fortemente e tal fato impactaria negativamente na nossa economia em 2% do PIB (pelo método do multiplicador da base exportadora). Algum tempo depois, o Ministério da Fazenda divulgou a estimativa de que a operação Lava Jato levaria outros 2% do PIB por conta da paralisação de investimentos e projetos. Essas questões afetaram adversamente as receitas públicas em nosso país, inclusive o potencial de crescimento da relação dívida/PIB em uma recessão aprofundada. O grande problema do déficit fiscal brasileiro apareceu quando se considera a conta de juros nominais, de 8,5% do PIB, quando a inflação não foi de demanda.

Referências

BLANCHARD, O. Slow Growth Is a Fact of Life in the Post-Crisis World. In: <https://piie.com/publications/op-eds/slow-growth-fact-life-post-crisis-world>. 13/04/2016.

DANTAS, F. Visão neodesenvolvimentista. In: <https://jlcoreiro.wordpress.com/2016/08/05/visao-neodesenvolvimentista-o-estado-de-sao-paulo-05082016/>. 05/08/2016.

MEDEIROS, R. Desindustrialização, histerese e o complexo debate das contas públicas. In: <http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Desindustrializacao-histerese-e-o-complexo-debate-das-contas-publicas/7/35442>. 04/02/2016.

REZENDE, F. Por que o Brasil sofre uma das piores crises de sua história? In: <https://economiateoriaepratica.wordpress.com/2016/08/04/por-que-o-brasil-sofre-uma-das-piores-crises-de-sua-historia/>. 04/08/2016.

THE ECONOMIST. Minsky’s moment. In: <https://economiateoriaepratica.wordpress.com/2016/08/04/minskys-moment/>. 30/07/2016.

 

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