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Há alguns anos iniciou-se no hemisfério norte uma discussão sobre a conveniência de substituir a meta de inflação por uma meta de crescimento do PIB nominal. Sabemos que o PIB é a somatória dos valores monetários produzidos em todos os setores de uma economia. Logo, o PIB nominal resulta do produto de preços por quantidade de bens e serviços. A ideia é simples: compensar com elevação dos preços (inflação) a falta de crescimento real (quantidades.

Sempre que menciono isso em aula, os estudantes em geral acham a ideia bem esquisita. Vivendo no Brasil da inflação crônica (mesmo quando baixa) em que não se passa um mês sem ouvir falar dela, pode parecer um despautério a sugestão de os governos empurrarem deliberadamente a inflação para cima.

Os países diferem em sua estrutura e produtividade econômicas. Nos países mais pobres, a oferta é não raro insuficiente para dar conta das grandes necessidades de consumo da população e os governos em geral devem gastar mais nestes países (sem contar as deficiências institucionais no manejo das políticas fiscal e monetária). Em resposta a pressões de preço de várias ordens, imprime-se mais dinheiro para girar o produto e a inflação mantém-se mais elevada.

Nos países desenvolvidos, dotados de avançada tecnologia, a produtividade anda à frente dos salários. Fica estagnada a renda de quem gasta quase tudo (trabalhadores) e mais dinheiro vai parar na mão de quem poupa muito (1% mais rico). Isso gera uma demanda insuficiente para viabilizar os lucros normais que os empresários desejam. Com efeito, as empresas percebem mais estoques de bens, enquanto os serviços são demandados em menor quantidade. A inflação fica baixinha, entre 0% e 2% ao ano. Este é o caso dos EUA, da Europa e do Japão.

É neste contexto de medo da “estagnação secular”, proposta por Larry Summers e Paul Krugman, que a proposta de inflar o PIB nominal aparece (ver mais aqui). A inflação pode estimular o “espírito animal” dos empresários, levando-os a aumentar o emprego de mão de obra, insumos e máquinas. O estímulo artificial pode gerar mais ocupação da capacidade instalada e, no médio prazo, induzi-los a investir na ampliação do estoque de máquinas e equipamentos e, com isso, ampliar ainda mais o emprego e a renda.

A crise de 2008 levou os governos dos países desenvolvidos a injetar trilhões de dólares na economia mundial com o fito de contornar as forças depressivas da desalavancagem de empresas, bancos e famílias. Cerca de 8 anos depois, os EUA começam a sentir os efeitos em seu mercado de trabalho. A figura abaixo (gráfico à direita) mostra que os salários no país começaram recentemente a ganhar força depois de algum tempo caindo a taxa de desemprego.

Payroll_EUA_aug16

Notem como teve que cair muito o desemprego antes que os salários começassem a ensaiar alguma reação.

Não seria, portanto, o momento de elevar as taxas de juros para prevenir uma elevação descontrolada da inflação?

O problema é que a meta de inflação de 2% já tem se mostrado difícil de atingir (as estimativas são de uma inflação de 1,7% em 2016). Injetar moeda na economia neste momento em que os preços não sobem pode ser exatamente a forma de distribuir mais renda para os trabalhadores, aqueles que gastam maior parcela dos seus ganhos mensais.

Mesmo assim, dois pontos requerem atenção quanto à viabilidade e efetividade da proposta: (1) os efeitos da liquidez aumentada se farão sentir nos investimentos uma vez terminado o ciclo de desalavancagem das empresas e bancos (quando estes quitam suas dívidas) e (2) a maior parte da população não vê com bons olhos a elevação de preços, ainda que sua renda esteja se elevando; este último pode ser o calcanhar de Aquiles da proposta: convencer as instituições e o povo de que uma pequena inflação não acabará necessariamente numa grande inflação, como é o caso de toda gravidez.

Enquanto isso, nossa inflação no Brasil vai caindo para os mais aceitáveis patamares de 5% ao final de 2017 após uma resiliente recessão que faz três aniversários este ano. Com nossas instituições, não dá pra brincar de meta de PIB nominal, pois nossa tendência seria despejar todo o dinamismo nos preços  e muito pouco nas quantidades.

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