Na edição de número 749, a Carta do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) traz informações relevantes da Organização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas (Unido). Esses números colocam em evidência a perigosa desindustrialização que vem ocorrendo no Brasil.

Segundo ponderou o Iedi, “mesmo diante de tantos reveses e de efeitos tão adversos de políticas executadas nas últimas décadas, a exemplo da política cambial, o fato é que o Brasil ainda tem presença no mapa industrial mundial, figurando entre as maiores indústrias do planeta” [1]. Para 2015, os países desenvolvidos representavam 56,4% do valor adicionado global e as economias emergentes 39,1%, sendo que a China responde por 23,8% no grupo. Os dados citados mostram que houve desindustrialização relativa nos países desenvolvidos.

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Quando se avalia o valor adicionado da indústria de transformação per capita, nota-se que foi aprofundado o processo brasileiro de desindustrialização prematura. Em relação à parcela do valor adicionado da indústria de transformação no PIB, no Brasil ela continua sendo inferior à do mundo e à dos países de renda média alta. Enquanto o crescimento do valor adicionado industrial global foi de 2,8% em 2015, 4,5% de avanço entre os emergentes industriais, o Brasil enfrentou uma queda de 9% por conta da grave recessão doméstica.

Entre 2006 e 2010 e de 2011 a 2015, o valor adicionado da indústria de transformação mundial cresceu 3,5% e 2,9%, respectivamente. Esses crescimentos foram superiores à evolução do PIB, de 2,6% nos respectivos períodos citados. Para o Iedi, “isso mostra que a indústria ainda constitui um motor de crescimento econômico. Cabe notar que a desaceleração das manufaturas deveu-se principalmente ao menor ritmo de evolução da produção chinesa”. Como vem apontando o economista Paulo Gala (EESP-FGV), “são ricos e desenvolvidos aqueles países capazes de produzir e vender no mercado mundial bens complexos. São pobres aqueles apenas capazes de produzir e vender coisas simples e rudimentares” [2]. A regressão da complexidade econômica na pauta exportadora brasileira aponta para o fato de que caminhamos na contramão do desenvolvimento nos últimos dez anos.

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Desde o final de 2014, estava bem claro que a desindustrialização prematura dificultaria uma rápida recuperação brasileira em um contexto no qual o Fundo Monetário Internacional (FMI) chamaria, em 2015, de “um novo medíocre” em termos de expectativas de crescimento global. O efeito de histerese derivado da desindustrialização prematura já apontava para uma saída lenta, difícil e dolorosa da crise [3].

Um debate qualificado sobre a produtividade precisa considerar as dimensões dos problemas de competitividade da indústria de transformação no Brasil, pois sem investimentos em setores industriais de maior intensidade tecnológica, dificilmente nos tornaremos desenvolvidos algum dia. Será difícil convencer os empresários a voltarem a investir no setor de bens transacionáveis não commodities enquanto o nosso regime macroeconômico cristalizar a sobrevalorização cambial crônica do real e não parece sensato querer jogar todo o peso dos “ajustes” sobre os trabalhadores, precarizando-os.

Notas

[1] http://www.iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_749.html

[2] http://www.paulogala.com.br/setores-menos-produtivos-ganham-espaco-no-pib-brasileiro/

[3] http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Desindustrializacao-histerese-e-o-complexo-debate-das-contas-publicas/7/35442

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