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Os discursos nas Assembleias Gerais das Nações são aguardados por todos aqueles que acompanham a cena internacional, pois deles podemos extrair as linhas gerais da política exterior de um país. No caso do Brasil, esse pronunciamento ganha ainda maior significado, já que seria a primeira vez em que Michel Temer – alçado à presidência após um longo e conturbado processo de impeachment – falaria à comunidade internacional.

Apesar da verborragia inicial do chanceler José Serra, o discurso de Michel Temer foi mais brando, buscando, mais que mostrar as diferenças em relação à sua antecessora, apontar as continuidades na política exterior brasileira, tradicionalmente pouco afeita à guinadas radicais. Para isso, o presidente brasileiro lançou mão de princípios e pautas já tradicionais na diplomacia brasileira.

O desenvolvimento, apesar de alguns ajustes, continua a ser o vetor da política exterior brasileira e, nesse sentido, o centro do discurso de Temer fez lembrar outros dois momentos recentes da diplomacia brasileira – o governo Itamar e o primeiro governo FHC – em que o foco do discurso era passar a imagem de um país estável e crível, ou seja, atrativo aos investimentos externos.

Nesse sentido, o ponto central do discurso foi a condenação ao protecionismo, com particular atenção às negociações para pôr fim aos subsídios agrícolas na Organização Mundial do Comércio que se arrasta por mais de uma década.

Outra pauta tradicional da política externa brasileira, um pouco esquecida nos discursos de Dilma e agora retomada por Temer, foi defesa da reforma da ONU, principalmente do Conselho de Segurança, recolocando a candidatura brasileira a cadeira permanente no órgão. Como credenciais a essa vaga foram ressaltados elementos também já utilizados pelos governos anteriores como a tradição pacifista, a diversidade populacional brasileira, a presença brasileira em missões de paz e a defesa da solução pacífica de controvérsias para os conflitos internacionais atuais, com destaque ao embate sírio e à ameaça nuclear norte-coreana.

Apenas duas regiões foram citadas pelo presidente, o que daria algumas pistas das áreas consideradas prioritárias para o Brasil. Além da América Latina, a outra região mencionada foi a África – região tradicional na política externa petista.

No caso latino-americano, foram citados os tradicionais laços de amizade entre o Brasil e a região, principalmente com o seu principal parceiro, a Argentina, colocando o desarmamento nuclear na região como exemplo para outras nações. Cabe destacar que, em nenhum momento, o presidente brasileiro colocou o Brasil em uma posição de liderança na América do Sul, já que, nos últimos anos, o país perdeu o seu protagonismo regional, atuando de forma pouco decisiva para o desfecho de diversas questões como o reatamento das relações Brasil-Cuba e a paz entre as FARC e o governo colombiano.

Em relação à África, ficou clara um retorno da política externa africana seletiva, com atenção maior aos países de língua portuguesa, o que aponta para uma mudança em relação à política externa africana universalista implementada pelo governo Lula. Isso ocorreria, pois, nesses países, tradicionais parceiros comerciais do Brasil, o país teria mais chances de sucesso em seus investimentos.

Em relação aos temas multilaterais, além da questão do desarmamento nuclear citada anteriormente, a defesa da preservação ambiental e dos direitos humanos também estiveram presentes. Em relação ao meio ambiente, além da referência à assinatura do Acordo de Paris, o presidente manteve o discurso das responsabilidades comuns das nações em matéria ambiental, mas com papeis diferenciados entre países desenvolvidos – que teriam contribuir mais com o tema – e países em desenvolvimento.

No tema humanitário, houve referências claras aos programas sociais do governo, implementados e mantidos pelos governos petistas, tentando, nesse sentido, apontar à audiência doméstica a manutenção dessas políticas que tem recebido elogios externamente. O presidente também tocou, em mais de uma oportunidade, na questão migratória, ressaltando que o Brasil estaria disposto a acolher os migrantes e refugiados de forma não-discriminatória, pois seria um país construído por imigrantes.

Por fim, Michel Temer tocou na questão do impeachment, deixando claro que o processo teria ocorrido conforme a Constituição Brasileira, contando com o pleno funcionamento das instituições nacionais, afastando assim a possibilidade de que fosse um golpe, algo defendido por alguns poucos países da região, que não assistiram ou retiraram-se da sala, como Venezuela e Costa Rica.

Também ressaltou que o impeachment faria parte de um processo maior de depuração política, o que, no fim das contas, seria positivo ao Brasil, pois fortaleceria ainda mais a democracia e as suas instituições, permitindo um ambiente de maior transparência e previsibilidade aos investidores.

Sendo assim, seu governo estaria comprometido com a responsabilidade fiscal – música aos ouvidos do mercado financeiro – sem descuidar-se do plano social, no qual o Brasil ganhou elogios nos últimos anos, mas que a crise vem ameaçando esses avanços.

Ao final, ao citar Oswaldo Aranha, Michel Temer deixa clara a importância que seu governo dará ao plano multilateral e ao diálogo, marcas também tradicionais do discurso diplomático brasileiro.

Portanto, a estreia de Michel Temer foi de buscar abrigo na tradição sem grandes inovações, o que parece que será a sua política externa, para assim recuperar a credibilidade brasileira manchada com as crises política e econômica.

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