Tags

, , , , , , , , , ,

É quase certo que João Dória vá para o segundo turno com uma expressiva votação, mesmo com a rejeição de amplos setores do seu partido. É uma espécie de Trump dos Trópicos, com trejeitos moderados.

Ele encarna a imagem do self-made man, que começou a trabalhar cedo e construiu, com base em seu esforço e talento, um (mini-)”império” de 9 empresas e 112 funcionários.  No último debate antes do primeiro turno, Dória definiu-se como gestor, com um modelo “moderno” de Estado, diferenciando-se do modelo “obsoleto” e “arcaico” representado por Luiza Erundina e Fernando Haddad.

Dória surfa na onda coletiva de rejeição à política, tida como vício,  para propor a gestão técnica como virtude.

doriavserundina

 

 

Garrafa nova com vinho velho!

Trata-se do mito fundador da modernidade, isto é, lá pelos idos do século XVI. Este tema foi prodigiosamente representado pela obra de Fausto de Goethe – e primorosamente comentado por Marshall Berman em Tudo que é sólido desmanchar no ar.

mefistofoles_fausto

Representação de Fausto e Mefistófeles da obra Fausto, de Goethe

O mito narra a intrépida força da eficiência neutra do empresário inovador – moralizante, técnica, saneadora e modernizante – que rompe com as estruturas obesas e rígidas do desperdício e do privilégio na esfera pública – esta dominada pelos interesse políticos irracionais e mantenedores da irracionalidade e da tradição. Eis o mito do herói moderno encarnado por Fausto.

Mas será que cola esta imagem de empreendedor como o avesso ao político de carreira?

Nem o preguiçoso jornalismo brasileiro conseguiu engolir esse papo e falseou esta narrativa com poucas semanas de campanha (ver mais aquiaquiaqui e aqui). Mesmo assim, a história do empresário honesto e dedicado tem uma força mobilizadora quase irresistível. Senão, vejamos.

Uma pesquisa (de rigor questionável, mas informativa) foi feita por estudantes graduandos da FGV-SP para compreender as intenções de voto nas eleições para prefeito de São Paulo, agora em 2016. Note nos gráficos abaixo que nos cursos de Direito, Administração Pública e de Empresas Haddad detém a maior fatia das intenções de voto. É o curso de Economia que destoa da média de 46% de preferência por Haddad, exprimindo a opção por este em 26% da amostra e cerca de 30% dos respondentes, por Dória.

fgv_intecoes_votos_pmsp_1

fgv_intecoes_votos_pmsp_2

Verdade ou jogo retórico?

É inaceitável alegar que as pessoas que participaram da pesquisa acima são desprovidas de formação intelectual. Mesmo assim, as divergências aparecem de forma flagrante. Será o economista detentor de um conhecimento superior, um saber hermético que lhes permite enxergar com mais clareza a realidade política e econômica? Seriam os estudantes das outras áreas pessoas mais suscetíveis aos encantos do discurso politicamente correto do “pensamento mágico” da esquerda?

You wish!

Apesar de uma ampla parcela da profissão do economista responder positivamente às perguntas acima, o problema é bem mais complexo. O que explica, então, esta discrepância?

Uma hipótese provocativa: o mito fundador da modernidade é amplamente “vendido” nos cursos de economia como a premissa norteadora da percepção mundo. Genericamente falando, a visão oficial oferece duas caricaturas: o mercado é visto como o lócus da eficiência e o Estado como a esfera dos vícios, das tentações e do desperdício. É com base nestas “visões de mundo” que se formam os conceitos de “certo” e “errado”, “verdadeiro” e “falso”.

De forma geral, cai fácil na história do “João Trabalhador” quem acredita cegamente neste mito do herói moderno. Aqueles mais inclinados à crítica desta caricatura estariam menos sujeito à narrativa do herói moderno.

(Obviamente, isso não significa que não haja outros motivos para pender na direção de Dória, nem que todos que estudam economia caem no discurso, apesar de parecerem cair mais do que os estudantes de outros cursos. Além disso, há muita rejeição ao concorrente principal no primeiro turno, representante do trabalhismo. Não alegamos aqui a predominância deste mito na explicação dos resultados, apenas a sua significância).

 

A visão de mundo: o homem racional econômico é fruto do seu meio

É amplo o campo de estudos em metodologia que analisa a inclinação do ser humano a traduzir suas visões de mundo em conhecimento – muitas vezes, pretensamente  – científico. Portanto, vejamos se o curso de economia altera a percepção dos estudantes entre o momento de ingresso e a graduação.

Sobre este assunto, Leda Paulani (2010) tem uma agenda de pesquisa sobre a relação entre o discurso econômico e a modelagem econômica. No contexto da modernidade, Paulani coloca a retórica como mecanismo central no processo de superação de controvérsias teóricas entre economistas. Ela comenta um interessante experimento feito por Ana Maria Bianchi, descrito abaixo:

Em trabalho publicado ao final dos anos 1990, Bianchi (1998) relata os resultados da replicação que fez no Brasil do experimento sobre barganha realizado nos Estados Unidos por Carter e Irons. Por meio de um jogo de ultimato, buscava-se avaliar qual o peso da motivação autocentrada no comportamento de diferentes grupos. Ela trabalhou com dois grupos de estudantes universitários, o primeiro do curso de economia e o segundo do curso de ciências sociais e com dois estratos dentro desses dois grupos: estudantes iniciantes e estudantes já no final do curso. Os resultados mostram, para os dois grupos, um claro afastamento do modelo de racionalidade egoísta típico da ciência convencional, com valores como justiça e equidade aparecendo com peso significativo no comportamento dos estudantes.

Ou seja, estudantes de faculdades sempre estereotipadas como sendo opostos do mesmo complexo ideológico parecem começar com “visões de mundo” similares. Ambos os grupos iniciantes parecem rejeitar a supremacia do mito da modernidade, temperando sua visão com aspectos positivos atribuídos ao coletivismo e ao Estado.

 Mas o resultado mais interessante do experimento é que, quando se toma exclusivamente o grupo dos estudantes de economia em final de curso, seu comportamento se aproxima muito do comportamento esperado para o homem econômico racional típico, o que não acontece com os estudantes de economia em início de curso.

Ao longo do curso, contudo, parece que há uma mudança no sentido de elevar o “grau de crença racional”, como definiu Keynes em seu Tratado da Probabilidade, no mito do herói moderno, calculista e maximizador. Daí, conclui Leda Paulani:

Os irreais homens econômicos da teoria convencional são, hoje, portanto, produzidos, em alguma medida, pela própria teoria. A soldadesca interesseira produz a realidade que lhe convém e produz os homens que continuarão a produzi-la (Paulani, 2010, p. 41).

Não precisamos aceitar integralmente a conclusão da autora para enxergarmos que há uma parcela de verdade na ideia de que as visões de mundo são formadas a partir do convívio em comunidades que compartilham de determinados valores, normas e costumes sociais. Ainda que haja elementos de heterodoxia no curso de Economia da FGV-SP, a força da corrente principal da economia prevalece na estrutura curricular alinhada aos centros acadêmicos no exterior.

Como sempre, o problema é saber se esta pesquisa foi apenas um ponto fora da curva causado pela ojeriza ao PT em plano federal – traduzindo-se na rejeição do partido no plano municipal -, ou se representa o fundamentos teóricos de um posicionamento político claramente delineado.

Fica a provocação e as referências para leitura. Boa semana!

Sugestão de leitura (hat tip to Antonio Carlos A. dos Santos, vulgo Toninho): COVRE, M. L. M. e MANZINI-COVRE,M.L . A Formação, Ideologia do Administrador de Empresas. 1ª. ed. Petropolis: Editora Vozes, 1980. v. 1. 201 p.

Anúncios