A relação entre industrialização e o processo de desenvolvimento socioeconômico dos países é conhecida desde o advento da Revolução Industrial. Esse processo complexo e não linear inclui o crescimento relativo do setor de serviços nos empregos totais e no produto. Mais recentemente, o fenômeno da desindustrialização tem sido objeto de maiores debates.

Uma matéria da BBC apontou que “promissora na década de 1980, a indústria brasileira entrou em declínio e hoje representa apenas pouco mais de 10% do Produto Interno Bruto do país” [1]. A sua perda de participação no PIB desde meados dos anos 1980 é citada na respectiva matéria como uma desindustrialização precoce, segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad, em inglês). Esse fenômeno foi observado na América Latina, mas o Brasil se destacou negativamente.

A desindustrialização é considerada precoce pela Unctad “quando uma economia não chega a atingir toda sua potencialidade produtiva manufatureira e, em vez de evoluir em direção à indústria de serviços com alto valor agregado – setor terciário -, regride para a agricultura ou cai na informalidade”. Na avaliação da Unctad, que consta na matéria da BBC, o processo teve início com os choques econômicos vividos nos anos 1980, intensificando-se com a abertura comercial no começo dos anos 1990, seguido pelo abandono das políticas desenvolvimentistas e pelo emprego da taxa de câmbio como ferramenta no combate à inflação. O ciclo de boom das commodities adicionou ilusões às perspectivas de desenvolvimento regional na América Latina.

Em sua edição 752, a Carta do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) traz reflexões sobre a importância da indústria e os riscos da desindustrialização prematura. Entre as constatações apresentadas, destaco que o “crescimento da produção de manufaturas alavanca o setor de serviços, ou seja, a atividade manufatureira tem efeitos multiplicadores e de encadeamento sobre os serviços no curto e longo prazo” [2]. Apoiando-se em trabalhos acadêmicos, o Iedi afirma também que o desenvolvimento industrial promove a acumulação de capital e acelera o progresso tecnológico.

As consequências negativas da desindustrialização prematura foram apontadas: “o deslocamento do emprego em direção a atividades de baixa produtividade do setor de serviços e do setor primário, bem como o aumento da informalização e da precarização das condições de trabalho e de vida das populações”. Esse debate não parece estar bem contemplado quando se discute o ajuste das contas públicas em nosso país. Afinal, a nossa democracia poderá se fragilizar ainda mais com a desindustrialização precoce.

Desde o final de 2014, estava bem claro que a desindustrialização prematura dificultaria uma rápida recuperação brasileira em um contexto no qual o Fundo Monetário Internacional (FMI) chamaria, em 2015, de “um novo medíocre” em termos de expectativas de crescimento global. Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano e acadêmico de prestígio, vem defendendo a tese da “estagnação secular” e suas implicações derivadas da histerese na redução do crescimento global. Pouca atenção recebeu no Brasil.

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O efeito de histerese derivado da desindustrialização prematura já apontava para a saída lenta, difícil e dolorosa da crise. O crescimento do emprego e da participação relativa no PIB do setor de serviços não se processou em consonância com o necessário aumento de produtividade da economia brasileira. A persistente inflação de serviços reflete esse quadro. Em síntese, não parece sensato jogar todo o peso dos “ajustes” sobre os trabalhadores enquanto o nosso regime macroeconômico cristalizar a sobrevalorização cambial crônica do real.

Notas

[1] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37432485

[2] http://www.iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_752.html

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