Tags

, , , , , ,

Como já vimos aqui em outra ocasião, os EUA se encontram há 8 anos em uma “Grande Recessão”, com taxas de juros próximas de zero, crescimento cambaleante, dívidas pública e privada no céu e inflação rastejante. Baixar taxas de juros nesta circunstância tem pouco efeito sobre a atividade econômica, de forma que o Banco Central se vê cativo de uma “armadilha de política em baixa inflação” (Low-Inflation Policy Trap). Ou seja, EUA e Europa precisam desesperadamente de mais inflação… bem, alguma inflação já serve.

Stephen Williamson do St. Louis FED publicou, há algumas semanas, um breve artigo com uma ideia ousada para tirar a diretoria da instituição desta armadilha, qual seja:

O FED deveria subir a taxa de juros para empurrar a inflação para cima em direção à meta de 2%.

Williamson intitulou sua reflexão “Neo-Fisherismo: uma ideia radical, ou a mais óbvia solução para o problema da baixa inflação?” e relembrou a famosa identidade formulada pelo economista norte-americano Irving Fisher

R = r + π

em que a taxa de juros nominal (R) é igual à soma da taxa de juros real (r) e da inflação esperada no período a frente (12 meses).

A figura 1 abaixo mostra que a relação tem base empírica, o que não é nada impressionante. O problema é saber a direção da causalidade, isto é, se é uma inflação maior que obriga o Banco Central a elevar a taxa de juros ou o contrário.neo_fisher_1

É largamente aceita entre economistas convencionais a ideia de que a inflação é resultado de excesso de moeda no sistema, como resultado de expectativas inflacionárias em ascensão. A elevação da taxa de juros por parte do Banco Central coibiria tal trajetória, inibindo o consumo dos agentes, por canais já conhecidos.

Todavia, Williamson não se deixa deter pela convenção e sugere a seguinte ideia, ilustrada pela figura 2 na sequência:

Uma elevação permanente da taxa de juros nominal (linha azul) daria um tranco imediato na taxa de juros real (linha laranja). Conforme a inflação (linha verde) responde positivamente, nos períodos seguintes, a taxa real retorna gradualmente ao seu nível anterior, ao passo que a inflação converge a um patamar mais elevado.

neo_fisher_2

Por detrás desta conclusão quase simplória está um jogo de elasticidades, isto é, para uma inflação previsível 12 meses à frente, uma elevação permanente de 1% da taxa de juros nominal eleva a taxa real em menos de 1%, cabendo à inflação esperada fechar o hiato aberto.

Mudança de mentalidade

O suporte empírico que o autor oferece é um estudo de John Cochrane (Univ. de Chicago) em que tal relação de causalidade é atestada, sob condições de estabilidade da taxa de inflação em patamares muito baixos. Diz Cochrane:

But if inflation is stable under an interest rate peg, then were the Fed to raise interest rates, sooner or later inflation must rise. This prediction has been dubbed the “neoFisherian” hypothesis. One may distinguish a “long run” hypothesis, that a rise in an interest rate peg will eventually raise inflation, allowing a short-run movement in the other direction, from a “short-run” version in which inflation rises immediately.

Williamson alega – com convicção, mas sem provas – que a mentalidade convencional dos dirigentes de Bancos Centrais impede a implementação desta saída para a armadilha de baixa inflação, com exceção do FED que passou a elevar a taxa de juros em Dezembro de 2015 e vem dando sinais recorrentes (embora falsos) de novos elevações.

De acordo com o autor, os Bancos Centrais da Europa e do Japão devem abandonar a ciência convencional dos bancos centrais e permitir-se um “desvio” neo-Fisheriano. Cochrane é menos pretensioso em suas conclusões e apenas aventa possibilidades lógicas de modelos novo-keynesianos convencionais de 3 equações que podem ensinar novos caminhos aos banqueiros centrais sob mais variadas condições.

Resta-nos acompanhar os próximos movimentos do FED e verificar se esta ideia cola. E se colar, se foi o mecanismo mencionado ou outro oculto.

 

Um alerta final

Mas, aos economistas brasileiros heterodoxos vai um alerta. Estas ideias não devem ser transplantadas diretamente para a nossa economia, como indício de absorção por parte do mainstream de ideias heterodoxas longamente cultivadas. As condições para sua aplicação são bastante restritivas e em nada se parecem com o “efeito custo” ou “efeito Patman” da teoria pós-keynesiana.

 

Anúncios