O blog Marginal Revolution divulgou recentemente um artigo de Malmandier, Nagel, and Yan que verificou a relação entre a experiência pessoal dos diretores do Banco Central norte-americano (Fed) e o viés em seus votos.

O artigo aponta que os diretores com mais de 50 anos de idade  viveram em períodos de inflação mais elevada (anos 70 e início dos 1980) e, por isso, criaram uma aversão mais intensa ao fenômeno, de forma que seus votos sistematicamente refletem esta preferência por menos inflação. Estes diretores seriam, no jargão do mercado, os “águias” (hawkish), mais intolerantes à inflação e sempre votam a favor de uma elevação da taxa de juros.

Já os “cisnes” (dovish) são aqueles diretores que aceitam um pouco mais de inflação se isso impedir a elevação do desemprego (ou seja, estes têm viés a favor da manutenção ou redução da taxa de juros). Neste caso, os diretores teriam tido uma experiência pessoal em períodos de inflação mais moderada, provavelmente da segunda parte dos anos 1980 adiante, o período chamado de “A Grande Moderação”.

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Os autores citam um comentário, feito por um blog chamado Tim Duy’s Fed Watch:

I think these three players are all products of their experience. Yellen received her Ph.D in 1971. Fischer in 1969. Both experienced the Great Inflation first hand. Brainard earned her Ph.D in 1989. Her professional experience is dominated by the Great Moderation.

– Tim Duy’s Fed Watch, Oct. 12, 2015

A inovação do artigo está na nova base de dados de que os autores lançam mão para fundamentar seus resultados. Todavia, a ideia de relacionar experiência pessoal a posicionamentos políticos e econômicos não é nada nova.

Memória coletiva, normas e costumes

Kindleberger (1985) escreveu um livro pouco citado em que ele estuda a fixação repulsiva dos alemães com a inflação (dadas as duas experiências de hiperinflação em 1923 e 1946) e dos britânicos com os sindicatos. Sendo um historiador, Kindleberger não se impressiona com a emergente hipótese das expectativas racionais e procura outra abordagem para explicar o fenômeno, alegando que

as pessoas respondem a estímulos – ao menos ocasionalmente – de forma ideológica, ou com base em alguma memória coletiva de eventos e resultados passados (p. 129)

E arremata:

É bem possível que a ideologia, para deixar claro, seja meramente memória coletiva internalizada como uma “regra de bolso” (rule of thumb) ou uma “lição da história.

Esta memória coletiva afetaria

algumas respostas econômicas, mas não outras, ao longo de períodos que parecem questionar a simples hipótese de que a memória coletiva em questões econômicas se dissipa monotonamente com a passagem do tempo. (p. 130)

De acordo com o estudo sobre os diretores do Fed acima, a memória coletiva dos EUA com respeito à inflação parece estar segmentada pela idade e, possivelmente, tende a se dissipar conforme o tempo passa.

O mesmo não se observa, no entanto,  na Alemanha em que a memória coletiva persiste na firmeza de propósitos anti-inflacionários que orienta a política monetária europeia governada pelos alemães. Simon Mee da Universidade de Oxford já escreveu sobre isso e mostra como, no pós-guerra, a tecnocracia alemã infundiu seletivamente na população esta obsessão com a inflação, mas não aplicou a mesma “maledicência” contra o desemprego, outro terrível algoz da história alemã.

Liam Delaney também verificou esta relação para a Alemanha e a União Europeia e concluiu que:

There is historical evidence supporting higher rates of inflation aversion in the German population and Issing (2005) has argued that this had a role in Bundesbank policy.

É interessante notar a abertura da profissão para esta abordagem. Robert Shiller é um dos mais proeminentes seguidores desta hipótese, e foi laureado com o Prêmio de Economia do Banco Central da Suécia concedido em memória de Alfred Nobel. Shiller supõe que os fenômenos das bolhas especulativa são promovidos também por forças de ordem sociológica e psicossocial. Esta é a ideia por trás de sua hipótese de “exuberância irracional” ao longo dos “soaring 1990s” .

Mas, como diz o próprio autor, a primazia da hipótese de expectativas racionais gerou uma enorme resistência da parte dos economistas em ao menos cogitar hipóteses alternativas:

Academic economists who wrote about them (Galbraith 1954, Kindleberger 1978) found that the academic profession, while in some dimensions interested in their work, largely distanced itself from their views. Part of the academic resistance has to do with unfortunate divisions in the pro- fession: The notion of a speculative bubble is inherently sociological or social-psychological and does not lend itself to study with the es- sential tool bag of economists.

Em artigo publicado em 1997, Shiller (Why do people dislike inflation?) aplica o método para mostrar que a aversão alemã à inflação supera com larga vantagem a aversão brasileira à escalada dos preços. Mas isso não significa que, por aqui, a aversão seja pequena.

Faltam estudos neste sentido para o Brasil, mas a adoção do regime de metas de inflação como âncora das diretrizes de política econômica certamente está calcada, ainda que em parte, na memória coletiva brasileira de mais de 5 décadas de uma inflação resistente.

Diferentemente da Alemanha, a qual viveu surtos inflacionários pontuais, o brasileiro desenvolveu mecanismos de convivência pacífica com a inflação que perduram até hoje, como a indexação contratual de preços e o reajuste semi-automático de preços em todos os setores, como apontei em artigo publicado em 2014 na Revista de Economia Política.

 

Referências

KINDLEBERGER, Charles (1985). Keynesianism vs. Monetarism and other essays in financial history. London: George Allen & Unwin.

Shiller, R. (1997). Why do people dislike inflation? In C. Romer & D. Romer (Eds.), Reducing inflation: Motivtion and Strategy. (pp. 13-65). Chicago and London: The University of Chicago Press. Retrieved from http://www.nber.org/chapters/c8881.pdf
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