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Trump venceu a corrida presidencial norte-americana, algo impensável, até para o site “O Sensacionalista”. O mundo amanheceu em choque na quarta-feira passada, dia 09 de novembro de 2016. A numerologia afoita se apressou em indicar o prelúdio macabro: 11/09 e 09/11.

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As ondas de estarrecimento varreram os mercados de ativos mundo afora conforme eram apurados os votos de colégios eleitorais pró-Trump. Como esperado, o mercado reagiu de maneira exagerada, meio perdido, meio na esperteza.

O peso mexicano sofreu uma depreciação de 13% na madrugada de terça para quarta-feira (gráfico abaixo), ilustrando como a retórica política vitriólica gera transtornos a moedas que não gozam do “privilégio exorbitante” de ser a moeda de reserva internacional.[1]

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Em poucas horas, as análises inundaram o noticiário, oscilando entre a obviedade e a surpresa, polarização típica da reação humana aos chamados “fenômenos de cauda”, eventos extremos com probabilidade de ocorrência próxima de zero, calculada a partir da experiência passada (eis o fenômeno do “cisne negro” descrito por Nassim Taleb).

Como no referendo britânico que determinou a saída do país da União Europeia (BREXIT), Trump alavancou nos bastidores seus 29% de probabilidade de vitória, conforme indicavam as pesquisas na véspera do pleito (abaixo).

 

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The Namesake

Trump traz no nome o potencial vencedor em disputas um-a-um. Em inglês, to trump é um verbo que significa “ultrapassar, superar, vencer”. Durante a campanha, a própria Hillary utilizou, um tanto desajeitadamente, o trocadilho “trump up” para sinalizar um outro lado da moeda do significado de Trump: fabricar de forma desonesta ou enganosa uma acusação sem fundamento.

O primeiro significado parece ter prevalecido a despeito (ou por causa) do segundo significado. A história vai nos dizer, nos próximos 4 anos e 63 dias até a renovação ou não do mandato do presidente Trump.

O que fica evidente, à primeira vista, é o disseminado desânimo da população com a política. A figura abaixo mostra que 46,9% da população votante se absteve de manifestar sua opção.

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The Heartlands

A cientista política norte-americana Kathy Cramer já mergulhava na mentalidade do interior dos EUA muito antes de Trump e Hillary tentarem angariar o apoio deste contingente populacional “marginalizado” pelo noticiário dominantemente metropolitano dos EUA.

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O mapa acima mostra a migração de votos desde a última eleição, em 2012. As setas vermelhas sinalizavam a mudança de votos aos democratas para republicanos, enquanto as azuis, a migração em favor dos democratas.

Em seu livro “A Política do Ressentimento” (The Politics of Resentment), Cramer sugere que em áreas rurais, “a política se tornou uma questão de identidade pessoal”. Suas entrevistas mostram pessoas amarguradas com as a elites e o viés urbano da agenda pública, sentindo-se “pisados”, desrespeitados e expropriados dos seus direitos”.

Trump conseguiu canalizar este sentimento com uma retórica explosiva e de confronto com a etiqueta “politicamente correta” do progressismo urbano representado por Hillary Clinton.

Como vaticinou o Prof. Cardim Carvalho em sua página no Facebook meses atrás, “ganha força o sentimento de que se há alguém poderia perder para Trump numa corrida eleitoral, esta pessoa é Hillary Clinton”.

E mais uma vez, a economia tem algo a ver com isso…

Nos próximos posts, tentarei fazer um apanhado das teorias que explicam este resultado, para revelar que ele não é tão estranho quanto parece.

Spoiler: tem a ver com o avanço da desindustrialização do interior norte-americano e com a estagnação dos salários, conforme mostra o gráfico abaixo.

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[1] Isso significa que a fuga do peso foi parcialmente compensada pela corrida em direção a ativos mais seguros, como o dólar e as ações europeias e norte-americanas. Os títulos norte-americanos de 10 anos (10-year US Treasuries) perderam valor. Sem jargão: os investidores correram rumo à liquidez e à segurança, para longe do “epicentro” do terremoto (EUA) do que ficar na próxima vítima do abalo sísmico, México, conforme prometido por Trump. Foi uma sinalização peremptória de que o longo prazo parece nebuloso no país.

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