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Admito que fiquei surpreso na última semana quando Donald Trump venceu a eleição norte-americana. Primeiro, não era crente que o sistema político norte-americano, seja Partido Democrata ou Partido Republicano, permitiria que um outsider subvertesse o sistema, tomasse posição contra o establishment e vencesse. Segundo, o outsider que se distanciou da ponderação, adotando um discurso agressivo e extremista, mais próximo de um ator de teatro do que político. Terceiro, o baixo nível da campanha e a incapacidade da candidata democrata em ser consiste e convencer os eleitores de que mereceria os votos.

E, agora? Não vamos analisar o governo Trump em si, mas sim o que ele represente na mudança na composição de forças políticas nos países desenvolvidos e o impacto sobre a economia. Aqui prefiro focar nas mudanças estruturais de longo prazo, sem parecer um profeta do caos ou falar da economia de curto prazo baseada no sobe e desce como aparece na mídia[2].

O ponto de partida é que Donald Trump não é um caso isolado e, talvez, não uma surpresa. O motivo é que existe um descontentamento dos trabalhadores e classe média de baixa escolaridade nos países desenvolvidos, que cresceu após a crise de 2007-08. Essa parcela da sociedade se sente excluída dos benefícios da globalização e liberalização comercial, mais prejudicadas pelos ajustes recessivos e austeridade, não consideram que os governos estejam preocupados com seu bem-estar. Além disso, também se sentem ameaçados pela imigração pela competição por trabalho e não são simpáticos em conviver com culturas estrangeiras.

Nos EUA, essa parcela da sociedade desejava um candidato que abordasse os problemas acima e apresentasse soluções simples e diretas, mesmo que não sejam viáveis ou que o diagnóstico fosse equivocado, o importante era a convicção. Esse candidato acabou sendo Donald Trump e, assim, conseguiu massacrar os oponentes convencionais (Marco Rubio e Jeb Bush, por exemplo) do Partido Republicano nas primárias. A estratégia eleitoral nessa fase da campanha mostrava um Trump que se colocava contra o establishment do partido republicano.

Na corrida eleitoral de fato manteve o tom contra Hillary Clinton. A candidata democrata encarnava uma política profissional, que esteve nos círculos do poder nos últimos 30 anos, apoiada pelo establishment formada por Wall Street, megacorporações e mídia. Nesse ambiente, o voto no Trump significava buscar um candidato que se colocava fora da estrutura de poder e, ao mesmo tempo, representava um choque para mostrar o descontentamento com o sistema[3].

Quando filtramos as extravagâncias e baixarias do discurso do Trump, temos as mensagens:  antiglobalização e protecionista; anti-imigração; se coloca contra as elites de Wall Street e megacorporações; isolacionista que defende que os EUA não devem tentar salvar o mundo militar ou economicamente; defende reduzir impostos e aumentar gasto para melhorar a vida da população. Ou seja, fazer a América grande de novo e trazer de volta a prosperidade perdida.

Não quer dizer que vá ou possa fazer isso. Já que o Presidente norte-americano possui pouco poder, precisa negociar com o congresso, respeitar às leis e garantias de direitos que são guardadas pela Suprema Corte. Porém, a eleição do Trump representa um fortalecimento de posições que estão na sociedade norte-americana e ganham espaço em nichos do Partido Democrata e Republicano, especialmente sobre isolacionismo, protecionismo e políticas deem suporte à população. Obviamente, essas posições aparecem de forma difusa, dentro de construções mais elegantes, bem fundamentadas e mais ponderadas do que a versão apresentada pelo Trump.

Na Europa a situação é mais delicada e perigosa. O motivo é que os populistas europeus são políticos profissionais, líderes capazes de construir e dar corpo aos movimentos políticos. As consequências são de conseguirem ocupar posições em governos locais e na estrutura legislativa, que permite formarem bases de apoio de governo nacionais, forçando que sejam ouvidos e tenham opiniões consideradas.

O exemplo recente é o Brexit que nasceu dentro do sistema político britânico, ganhou força e conseguiu seu objetivo, seguido pela formação de um novo governo convencional conservador que precisa considerar o novo cenário. Nos próximos anos devem ocorrer um ganho de poder das posições mais extremas, especialmente baseado no discurso contra imigração, União Europeia, austeridade e globalização. Um dos líderes que pode se destacar é Marianne le Pen na França, cuja posição de poder pode contribuir com implosão do projeto atual de UE. Já em países em desenvolvimento figuras mais agressivas como Erdoğan na Turquia emergem como líderes de estruturas potencialmente autoritárias.

O ponto central é que o mundo está em mudança acelerada. Estamos em uma nova onda em que cresce o sentimento contra globalização, multiculturalismo e livre mercado. Isso de alguma forma vai ser incorporado nos partidos de centro esquerda e direita e virar políticas de governo no médio e longo prazo. Inclusive tendo impactos em acordos comerciais, integração financeira, instituições multilaterais, blocos regionais e coordenação de política. Ou seja, podemos estar observando o ápice de um movimento que começou a tomar corpo na década de 2000 e não temos muita ideia para onde irá levar.

 

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Na literatura econômica existe um amplo debate sobre comportamento do eleitor, relação entre economia e eleições, conflitos no processo orçamentário, democracia e populismo, além de diversos outros temas.

No entanto, vamos focar numa literatura sobre mercado de trabalho, desigualdade e comércio exterior. Nos anos recente os estudos para Europa e EUA indicam a existência de uma polarização no mercado de trabalho, motivada pelo avanço da tecnologia e integração comercial. Isto é, os postos de trabalhos de remuneração média, especialmente que poderiam ser atribuídos a economia industrial e velha dos anos 1970 e 1980, estão desaparecendo. No lugar surgem postos de trabalho de elevada remuneração direcionados para os profissionais mais qualificados e, no outro extremo, os postos de trabalho de baixa remuneração. Dessa forma, os trabalhadores e classe média de baixa qualificação tendem serem empurrados para postos de baixa remuneração, sofrendo a concorrência da mão-de-obra estrangeira por meio de imigrantes ou de produtos feitos no estrangeiro. Abaixo alguns trabalhos sobre o tema.

AUTOR, D., DORN, D., HANSON, G., & MAJLESI, K. (2016). Importing Political Polarization? The Electoral Consequences of Rising Trade Exposure. Acesso em 12 de novembro de 2016, disponível em http://www.nber.org/papers/w22637

KELLER, W., & UTAR, H. (2016). International Trade and Job Polarization: Evidence at the Worker-Level. NBER Working Paper(22315). Acesso em 12 de novembro de 2016, disponível em http://www.nber.org/papers/w22315

AUTOR, D. (2010). The polarization of job opportunities in the U.S. labor market: implications for employment and earnings. Acesso em 10 de novembro de 2016, disponível em http://economics.mit.edu/files/5554

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[1]Em um passado muito distante lá por idos de 2008, em um curso de economia do interior, numa tal de UFPR, fiz minha monografia sob o tema ”A Hegemonia Norte-Americana e o Sistema Monetário Internacional: a economia mundial na Era dos caubóis”. Na época descobrir essa literatura sobre hegemonia, relação de forças políticas e econômicas, financeirização e me empolguei. A empolgação durou uns seis meses e fui para outros caminhos.

[2]Cuidado com os especialistas que são torcedores apaixonados. Eles podem distorcer o espaço-tempo para encaixar seus argumentos. Ou pior construir cenários apocalíticos ou triunfalistas dependendo das suas convicções que estão bem longe do que está ou pode acontecer. Os casos recentes da vitória do Trump e no Brexit mostram exemplos nesse sentido. Após vitória do Trump temos uma série de post do Paul Krugman bem depressivos, por exemplo:

The Long Haul: leia aqui.

Portanto, muita calma nessa hora.

[3]O mundo não é divido entre mocinhos e bandidos. No caso das eleições norte-americanas, Trump pode não ser tão bandido e, a Hillary, nem tão mocinha. Aliás, muita gente tinha temor da Hillary pelo seu viés intervencionista, além de falar claramente em zona de exclusão área na Síria e enfrentar a Rússia militarmente. Nesse sentido, o Slavoj Žižek traz uma visão de esquerda radical, mas toca em pontos importantes de como Trump implodiu establishment norte-americano.

Texto “ Hillary, Trump e o mal menor

Slavoj Žižek: ‘Trump is really a centrist liberal

Um dos discursos do Donald Trump contra o establishment e com legendas em português.

 

 

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