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Já virou um lugar comum na política nacional a previsão de que a campanha de 2018 terá alguma “estrela” da direita radical, a qual sempre teve mais dificuldade em emplacar sua agenda eleitoral por estas bandas. Por outro lado, já estamos acostumados com o radicalismo de esquerda de PSTU e PCO há anos.

Não mais! A eleição de João Dória para prefeito de São Paulo neste ano de bizarrices e reviravoltas revela uma aderência de parcela crescente da população a um discurso “anti-política” (mais sobre isso aqui). Com efeito, a imprensa já passa a sondar a população a respeito de nomes como Justus e Bolsonaro para a eleição presidencial em 2018.

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Acesse o site da aqui para ter uma ilustração do discurso adotado. 

Este não é um movimento original nosso. Ganha força aqui no Brasil a disseminação de preferências eleitorais “anti-establishment” dos EUA que levou Donald Trump à presidência. Mas, há base real (e material) para tal movimento?

Para ilustrar o que tenho em mente, parto de um trecho do livro de  John B. Judis “A explosão populista: como a Grande Recessão transformou as políticas norte-americana e europeia” (Sem tradução). O autor avalia a emergência da Tea Party, movimento conservador americano anti-globalização e anti-imigração, cuja figura mais emblemática foi Sarah Palin, a polêmica ex-governadora do Alaska (2006-2009).

Durante a Grande Recessão, a maioria dos americanos podiam contar com a rede de proteção social criada pelo New Deal e pela Grande Society. Eles não tiveram que temer a fome real, a falta de habitação, nem ter suas economias varridas por uma crise bancária. A recessão afetou muito menos as classes médias mais velhas e brancas, que formaram a base do movimento Tea Party do que as classes mais baixas.

Durante a Grande Recessão, a classe média, definida como o terceiro quintil da distribuição de renda, perdeu renda bruta (antes de impostos), mas quando renda líquida (pós-impostos) e as transferências são incluídas, esta classe não perdeu renda real de 2007 até 2011. As taxas de desemprego também foram muito maiores para aqueles com apenas um ensino médio ou menos do que para aqueles com ensino superior. Isso criou uma situação em que partes da classe média temiam ter que subsidiar através de impostos mais altos ou planos de saúde mais caros aqueles nas classes mais baixas, bem como os imigrantes ilegais e, recentemente, os legais também.

Este processo encorajou uma reação de direita, e não de esquerda, para a Grande Recessão e para o neoliberalismo. Uma resposta populista viria eventualmente da esquerda, mas não seria inicialmente tão difundida ou emanada da mesma parte do eleitorado. (Cap. 2 – Tea Party – original abaixo)

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Minha impressão é que seguimos a trajetória do resto do mundo ocidental, a partir da Grande Recessão iniciada com a crise de 2008. É claro que nossos desafios são diferentes daqueles vividos pela Europa e pelos EUA. Feitas as devidas adaptações, acredito que poderemos enxergar os elementos comuns.

A narrativa tem, a priori, três grandes processos em ordem crescente de abrangência e de maturação, a saber:

  1. O vírus quiescente do populismo;
  2. O desequilíbrio fiscal e o paradoxo da redistribuição;
  3. Desindustrialização da economia e seus aspectos distributivos;

De forma abreviada, o argumento se desdobra da seguinte forma.

O populismo à direita é uma inflamação política que emerge no contexto de crise econômica acompanhada de desequilíbrio fiscal.

A correção deste último impõe a necessidade de socializar os custos do arrocho. As classes médias se veem como patrocinadoras centrais do Estado, sub-representadas nas contrapartidas deste.

Assim, diminui a defesa do orçamento público destinado a políticas sociais, colocando estas na linha de frente do ajuste.

A legitimidade do sistema político é minada pelas flagrantes tentativas de frações da elite de se esquivar dos cortes de gastos e da punição por malfeitos do passado. O vácuo de lideranças políticas é preenchido pelo discurso “anti-política” e “anti-elite”.

Emerge o populismo à direita.

Como se nota, trata-se de uma complexa trama de fatores que vem sendo gestada há décadas e que envolve um conjunto de transformações de longo prazo que gera reações não-lineares na dinâmica política interna aos países.

Os desdobramentos são irregulares, com rupturas de padrões e quebras estruturais em suas trajetórias. Por isso, vale a advertência: não será uma narrativa linear.

Convido o leitor e os colunistas aqui d’O Barômetro a me acompanhar nesta caravana, sugerindo caminhos e pistas, em busca do significado do fortalecimento de forças conservadoras no Brasil na forma de populismo à direita, que emerge na esteira da interrupção do projeto das forças de esquerda e do ocaso político do Partido dos Trabalhadores.

 

 

Trecho original do livro de Judis:

During the Great Recession, most Americans enjoyed the protections created by the New Deal and Great Society. They didn’t have to fear actual starvation, homelessness, and having their savings wiped out in a bank crash. The recession far less affected the older, white middle classes, who formed the base of the Tea Party movement than it did the lower classes. During the Great Recession, the middle class, defined as the third quintile in income statistics, lost pre-tax income, but when post-tax and transfer payments are included, didn’t lose income from 2007 through 2011. Unemployment rates were also far higher for those with only a high school education or less than for those with some college or a bachelor’s degree. That created a situation in which what parts of the middle class feared most was having to subsidize through higher taxes or healthcare premiums those in the lower classes or illegal and recent legal immigrants. It encouraged a rightwing rather than a leftwing response to the Great Recession and to neoliberalism. A populist response would eventually come from the left, but it would not initially be as widespread or emanate from the same part of the electorate. (Cap. 2 – Tea Party)

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