Escrevo esse post para atender o pedido do meu amigo André Roncaglia de “escrever um relato autobiográfico curto sobre suas escolhas profissionais até aqui”. O farei de modo subversivo, mesmo porque, não me autorizo a ser referência individual a ninguém.

Imagino que nenhuma criança queira ser economista. Melhor dizendo, espero(!) que as crianças jamais desejem ser economistas. Simplesmente não faria sentido.

Comigo não era diferente. Eu quis ser o que as crianças têm de querer : goleiro. Depois de marcar um gol contra – batendo um tiro de meta – achei por bem desistir e resguardar minha (auto)estima. Daí, em algum momento da adolescência, “escolhi” ser psicólogo e foi assim até entrar no cursinho pré-vestibular.

A fase do vestibular é uma fase política. E não é só porque as diferenças sociais estão escancaradas, sobretudo para quem fez escola pública. O vestibular significa, ao mesmo tempo, ocupar uma vaga e impedir que ocupem uma vaga. Isso é político. Além disso, “escolher” a profissão é negociar um lugar nos valores sociais. Essa negociação pode ser conservadora ou não, na medida em que ratifica ou contraria tais valores (muitos deles por nós internalizados). Eu não escapei disso, de modo que, como efeito do político, como não poderia deixar de ser, decidi prestar economia.

Particularmente, por quê? Vejamos:

Primeiro porque comecei a questionar o quanto a psicologia poderia me alçar nos valores sociais. Sendo vergonhosamente direto: me parecia que eu poderia ganhar mais dinheiro e, logo, prestígio, em outra área. Assim, mesmo sem saber muito bem o que era ser psicólogo, “escolhi” outra profissão.

O segundo motivo: me tornei economista por ser ruim em matemática.

Ora, sendo ruim em matemática eu não conseguiria ir melhor do que meus concorrentes vestibulandos, mesmo em psicologia. Esse infeliz motivo me fez estudar intensamente a tal matemática. Acabei gostando tanto que “escolhi” que deveria fazer parte da minha formação (logo eu, um cara ‘de humanas’).

Por fim, a política dita diretamente. O cursinho em que eu estudava, com uma pegada de cursinho popular, começou a me introduzir no que tem atravessado esse texto: o fato de a lógica do mundo ser sempre, e antes de mais nada, uma lógica política. E as razões e desrazões dessa política foram mais uma condição que eu “escolhi” para a minha formação.

Dessa forma, temos a equação:

Cara de humanas + Matemática + Política + Dinheiro = Economista.

Depois do segundo ano de cursinho, entrei no Instituto de Economia da Unicamp. Descobri, como talvez nós todos tenhamos descoberto, que a economia não era nada do que eu imaginava; mas fiquei, de verdade, apaixonado por ela. Já no início do curso “escolhi” prestar concursos públicos para cargos de nível médio. Queria ter estabilidade para sustentar a minha formação e a minha vida em Campinas. Dessa forma, no segundo ano de faculdade, comecei a trabalhar como funcionário da própria Unicamp.

No horizonte, a “escolha” ainda era me tornar endinheirado. Mas essa minha disposição mudou drasticamente no meu primeiro processo seletivo. Me deparei com uma “peneira psicológica” feita a partir de dinâmicas e perfis de RH, de modo que me senti ofendido nos meus valores (inclusive intelectuais) e inseguro quanto à minha capacidade de performatizar o que a sociedade empresarial poderia exigir de mim. “Escolhi” que aquele era um mundo no qual eu não me encaixava. Como estudar, sem sombra de dúvidas, havia se tornado, há muito, um do meus maiores prazeres, seguir a vida acadêmica.

Um ano após iniciar o mestrado, decidi voltar a trabalhar e iniciei minha carreira docente, sobretudo assumindo disciplinas de matemática. Dentre tantas “escolhas”, a última, e inclusive bastante custosa, foi a de aceitar o convite de dois professores para escrever a dissertação de mestrado e a tese de doutorado associando, exatamente, economia e psicanálise. Se, por um lado, essa associação encontra lugar muito marginal na produção e nos critérios de prestígio das ciências econômicas, por outro, minha “escolha” tem motivações políticas e sociais muito importantes.

Marquei todos os termos referentes à “escolha” com aspas por uma provocação; porque “o indivíduo escolhe” é um dos princípios das ciências econômicas convencionais e foi formulado historicamente a partir da concepção cristã de livre-arbítrio.

O grande problema é que tomar essa ação como “princípio” esconde uma serie anterior de condicionantes sociais, históricos e, inclusive, econômicos, que fazem da “escolha” um elemento atravessado pelo laço social.

Dessa forma, sempre que se fala em escolhas – quer queira, quer não – tratamos de ações e reações políticas que representam não só a confirmação de possibilidades, mas também de impossibilidades, de responsabilizações, de valores e de experiências.

No limite, uma laicização da ideia de “escolha” nos implicaria pensar que, por sermos seres sociais, nossas decisões são sempre, e em alguma medida, arbítrios politicamente determinados (e politicamente determinantes). Isso não exime ou ameniza a nossa responsabilidade, mas a estende socialmente.

Aproveitei o convite, então, e “escolhi” tentar problematizá-lo para além da minha experiência individual. Vale dizer: espero ter tido mais sucesso nessa “escolha” do que batendo tiro de meta.

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