Não é novidade que a concentração da riqueza vem se agravando mundo afora. O relatório da ONG Oxfam alega que 2017 começa com a seguinte situação: as 8 pessoas mais ricas do mundo detêm o mesmo patrimônio líquido (ativos menos dívidas) do que a metade mais pobre da população mundial (3,6 bilhões de pessoas). É estarrecedor notar que, em 2016, eram necessários 62 bilionários para a mesma comparação.  Segundo o jornal britânico The Guardian:

Last year, Oxfam said the world’s 62 richest billionaires were as wealthy as half the world’s population. However, the number has dropped to eight in 2017 because new information shows that poverty in China and India is worse than previously thought, making the bottom 50% even worse off and widening the gap between rich and poor.

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A despeito da controvérsia gerada pelo relatório da Oxfam, o Fórum Econômico Mundial 2017 – em Davos, na Suíça – reconhece que piorou a qualidade do crescimento econômico mundial, mostrando que a mediana da renda, nas 26 nações mais desenvolvidas, caiu em média 2,4% entre 2008 e 2013 . Ainda segundo  The Guardian:

… the WEF released its own inclusive growth and development report in which it said median income had fallen by an average of 2.4% between 2008 and 2013 across 26 advanced nations.

Norway, Luxembourg, Switzerland, Iceland and Denmark filled the top five places in the WEF’s inclusive development index, with Britain 21st and the US 23rd.

Ou seja, a metade mais pobre da população destes países está vivendo com renda relativamente menor. O gráfico abaixo mostra que o 1% mais rico do mundo carrega quase a metade da riqueza mundial.

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Relatório da Oxfam em 2015, extraído da crítica de Salmon (abaixo) para a Fusion

A realidade do Brasil não é muito diferente, como mostram a pesquisa da Oxfam para o país e os estudos de Marcelo Medeiros em suas investidas na área de concentração de riqueza no Brazil.

Os riscos do tecnicismo militante

Muitos economistas tem rejeitado o estridente relatório da Oxfam com base em minúcias técnicas. A crítica mais comum atenta para o fato de que a medição de “patrimônio líquido” (ativos – passivos) gera resultados no mínimo irônicos e, portanto, carece de rigor.

Por exemplo, um pai de família recém-formado em direito que detém um imóvel e um automóvel (ativo), mas que acumulou dívida de igual valor durante seus estudos (passivo), teria riqueza líquida igual a zero. Ele seria considerado, pela pesquisa, mais pobre do que uma faxineira que tem uma televisão mas não tem dívida nenhuma.

Há outras limitações técnicas, como salientou o Financial Times no ano passado (indicação do colega Thomas Conti, o qual mostrou como, pelos cálculos da Oxfam, Eike Batista seria o homem mais pobre do Brasil, com riqueza negativa em 3 bilhões ou mais).

Apesar de corretas isoladamente, estas críticas parecem perder de vista o foco e a implicação da pesquisa, como salientaram seus autores à revista New Yorker:

Felix and Salmon make a legitimate point—but it doesn’t matter much at all to Oxfam’s broader conclusion about the wealth gap. True, the organization’s figure would seem to lump indebted American doctors and former Presidents with less fortunate indebted people and poor, but not indebted, people in the developing world.

A revista ainda aponta que há uma boa correlação entre o nível de renda das famílias e o seu patrimônio líquido, de forma que, quando a renda sobe, o patrimônio tende a acompanhar. O curioso é que esta medida gera a possibilidade de pessoas altamente endividadas terem “patrimônio líquido” negativo.

In other words, people with high incomes but negative net worth are the exception, not the rule. To factor out those people, you can drop the bottom ten per cent of the wealth distribution from Oxfam’s calculation; this group includes those whose debt exceeds their wealth (not only high-income earners but also people with lower wages whose debt outweighs their wealth), plus some people with no wealth or small amounts of it. The rest of the bottom half still holds only about $2.6 trillion, versus the figure of under two trillion that Oxfam used to arrive at the marquee eighty-billionaires statistic.

Além disso, uma análise superficial sustentaria que os dados usados pela Oxfam subestimam o problema da desigualdade de riqueza ao jogar bilionários no “saco de desgraçados”, para usar expressão de Ariano Suassuna. Se removermos o endividamento do cálculo, vários pobretões milionários serão catapultados ao topo da distribuição da riqueza.

Isto é, a situação pode ser ainda mais grave do que indica a Oxfam. Não obstante, o relatório oferece algo a mais.

 

Uma Pergunta Inovadora

A contribuição do estudo está em sua pergunta inovadora, a qual abre espaço para a dimensão de análise sociológica e antropológica do endividamento na nossa sociedade, tema do interessante livro de David Graeber, Dívida: os primeiros 5.000 anos.

Graeber sugere uma relação positiva entre graus de violência e disseminação do endividamento ao longo dos 5.000 anos em que instrumentos de dívida desempenharam um papel de conformação das classes sociais às diferentes hierarquias políticas e arranjos econômicos.

O relatório da Oxfam joga luz sobre o patrimônio líquido material dos indivíduos numa sociedade regida por dívidas. Segundo este critério, evidencia o abismo que separa o grau de liberdade econômica das 8 pessoas mais ricas sobre o restante da população mundial, cujo patrimônio está empenhado em obrigações futuras. Outliers como Eike Batista mostram a força de fatores não observados, de ordem institucional e social, que atuam sobre a distribuição da renda e da riqueza e, portanto, sobre o grau de liberdade econômica da população.

Assim, a militância técnica dos especialistas é algo desejável para uma democracia, mas deve ser bem direcionada aos fins de aprimoramento da coesão –  e, se possível, da inclusão – social. Se mal qualificado, o rigor acadêmico autorreferenciado pode acabar viabilizando e/ou fortalecendo forças políticas que venham a agravar as já inflamadas convulsões sociais. Vejamos.

 

Demonização Seletiva?

A reação a estudos que mostram as iniquidades do sistema econômico centrado no mercado é geralmente a de rejeitar a suposta “demonização do capitalismo”, que se atribuem às conclusões da Oxfam, como a seguir, no texto de The Guardian:

Mark Littlewood, director general at the Institute of Economic Affairs thinktank, said: “Once again Oxfam have come out with a report that demonises capitalism, conveniently skimming over the fact that free markets have helped over 100 million people rise out of poverty in the last year alone.”

O argumento final de Littlewood não pode ser desconsiderado, mas confunde duas questões diferentes.De fato, 100 milhões de pessoas saindo da pobreza extrema no espaço de apenas 1 ano é algo a se comemorar. Mesmo assim, é difícil considerar como socialmente justo um sistema em que seja um sinal de sucesso ter centenas de milhões de pessoas vivendo com pouco mais de US$ 1 dólar por dia.

No entanto, o foco do estudo da Oxfam não é de nível de renda, mas da desigualdade descomunal e, portanto, do grau de exclusão do sistema econômico.

É de fato controversa a ideia de que a desigualdade crescente constitua uma “lei de ferro do capitalismo”, uma premissa rejeitada pela organização do evento em Davos; tampouco é convincente a defesa de tamanha disparidade de renda seja promotora de eficiência e fruto do mérito e da produtividade de cada milionário.

É esta a indignação que embasa o comentário militante da Oxfam:

While one in nine people on the planet will go to bed hungry tonight, a small handful of billionaires have so much wealth they would need several lifetimes to spend it. The fact that a super-rich elite are able to prosper at the expense of the rest of us at home and overseas shows how warped our economy has become.

Trocando em miúdos, o problema é mudar o sistema que distribui os frutos do esforço coletivo, tornando o crescimento mais inclusivo, isto é, transferindo mais renda para quem tem menos em vez de transferir mais renda e riqueza para quem já tem demais.

O relatório ainda aponta que cerca de 1/3 da riqueza é derivada de heranças, bem como os relacionamentos sociais são fortes determinantes do sucesso material dos mais ricos. Esta tendência está na base do argumento do Piketty em seu best-seller e a Oxfam oferece um cenário ainda mais aterrador:

The Oxfam report added that since 2015 the richest 1% has owned more wealth than the rest of the planet. It said that over the next 20 years, 500 people will hand over $2.1tn to their heirs – a sum larger than the annual GDP of India, a country with 1.3 billion people. Between 1988 and 2011 the incomes of the poorest 10% increased by just $65, while the incomes of the richest 1% grew by $11,800 – 182 times as much.

Ou seja, a riqueza concentrada não sugere um alívio deste problema, ainda que o crescimento econômico deixe cair alguns farelos para a parcela mais pobre da população.

Se a Oxfam faz uma “demonização do capitalismo”, a emergência do populismo de direita incita a “demonização do Estado”, elevando a rejeição de políticas de redistribuição frente à incapacidade do sistema econômico garantir o rendimento mínimo à sobrevivência de uma significativa parcela dos habitantes da aldeia global.

Moralismo Social

Não se trata de desmoralizar os 8 bilionários do mundo, como sugeriu a Infomoney. Estes geram valor e cumprem seu papel, ainda que possa haver desproporção entre contribuição e remuneração.

Fulanizar o problema cria uma nuvem de fumaça que pode adiar sua solução. Estudos como o da Oxfam buscam denunciar os resultados socialmente perversos do funcionamento das instituições e dos mecanismos econômicos.

De fato, precisamos de mais inovadores como Zuckerberg e afins. Porém, tais visionários podem estar agora sentados em algum barranco de Nairóbi, batendo uma bola em Copacabana ou em um abrigo anti-bomba em Aleppo, à espera da oportunidade transformadora que vai lhes permitir compartilhar seu talento com a humanidade.

Como salientou Paul Krugman numa densa opinião no NYT, a desigualdade muito vasta é hostil ao crescimento econômico e que a presença de redes de proteção social incentiva a tomada de riscos que acompanham a inovação, como ilustram os casos da Suécia, da Dinamarca e de Cingapura, dentre outros.

O discurso apologético da meritocracia e da produtividade tem sua dose de razão. Mas é uma explicação simplória, por que minimiza a importância de fatores como patrimonialismo (rent-seeking), corrupção e privilégios (heranças) na determinação de 65% da renda dos mais ricos do mundo, conforme este estudioso.

Mais do que isso, o discurso puro-sangue da meritocracia pode empoderar a visão de mundo e as forças políticas contrárias ao avanço de políticas redistributivas – o chamado paradoxo da redistribuição – que garantem não apenas o alívio da pobreza, mas que garantem um grau sustentável de coesão social, esta um barômetro das tensões sociais que regulam o bem-estar individual e coletivo.

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