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Venho trazer mais um relato autobiográfico de trajetória profissional, na tentativa de mostrar que as escolhas, e as crises existenciais ao longo dessa trajetória, são mais comuns do que a maioria pode imaginar. O caminho é árduo, e repleto de incertezas, mas também carrega fatos inusitados – trágicos ou divertidos – que vão nos construindo como pessoas.

Por que essa escolha?

Nas várias entrevistas de emprego que já fiz, a pergunta “Por que você escolheu fazer Economia?” foi sempre presente. E a resposta levava os entrevistadores às mais diversas reações: alguns riam de mim, outros ficavam claramente com pena, mas a maioria ainda parecia ver obstinação na minha escolha – valorizando o meu perfil (o que me fazia acreditar um pouco mais num mundo menos cruel).

Quando criança, o meu sonho era ter uma bicicleta! Mas meus pais não tinham condições financeiras de compra-la – nasci em 1984, fase final da ditadura militar, em meio à hiperinflação, dividindo a renda e a atenção da família com mais 2 irmãos, com a mãe dona de casa vinda do sertão nordestino e o pai vendedor vindo do interior de Minas, ambos com pouquíssima escolaridade.

Naquela época meu pai tentou iniciar a minha educação financeira: todo dia, ao chegar em casa, me dava uma moeda ou uma nota, que eu sistematicamente guardava em um potinho, para um dia comprar a minha bicicleta. Eis que no ano em que aquele potinho estava cheio, e eu estava pronta para comprar a minha bicicleta, a moeda mudou para o Real, e com o dinheiro da bicicleta eu consegui comprar 1 chocolate e 2 balas.

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Imaginem o trauma que isso causou em uma criança de 10 anos, que teve tanta disciplina para guardar aquele dinheirinho! Bom, o trauma levou à decisão de cursar Economia. Decisão que me custou 2 anos de cursinho pré-vestibular e muitas desesperanças – eu não podia pagar faculdade, e sempre fui dita como incapaz de passar no vestibular para estudar na USP.

Um pouco sobre a trajetória…

Comecei a trabalhar aos 12 anos, como vendedora em uma loja de roupas no bairro onde morava. Nessa época eu trabalhava apenas nos períodos de férias, nas contratações temporárias de dezembro. Quando fui para o 2º grau comecei a trabalhar como auxiliar administrativa em uma microempresa.

No início da faculdade, ainda sem poder fazer estágio, me mantinha trabalhando no call center do cursinho pré-vestibular onde estudei, na esperança de que poderia ter uma carga horária reduzida e me dedicar um pouco mais aos estudos (sim, a FEA-USP parte do pressuposto de que todos os alunos tem plenas condições de serem sustentados pelos pais e que, portanto, devem se dedicar integralmente aos estudos, pelo menos até completar 1 ano e meio de faculdade – o que de fato é verdade para a esmagadora maioria dos alunos que ingressam lá todo ano).

 

O que veio depois, já como Economista

Quando eu pude começar a estagiar fui contratada na Rosenberg, uma consultoria macroeconômica que me acolheu e me ensinou o que era ser Economista. E que paciência eles tinham comigo! Naquela época eles tiveram que me ensinar até o que era um “Paper”, tamanho era o meu desconhecimento sobre o mundo do economista acadêmico. Se fosse pelas pessoas e pela experiência, eu estaria lá até hoje.

Mas eu sabia que precisava conhecer outras coisas, principalmente o mercado financeiro, sobre o qual não aprendemos quase nada na faculdade – apesar do que a maioria das pessoas pensam. E foi aí que eu fui estagiar no banco de atacado do Santander, com mensuração de risco de operações de Derivativos. Engraçado que antes de bater o martelo na contratação os meus gestores me ligaram e disseram “Gostamos muito de você, e queríamos que você viesse trabalhar conosco; mas a vaga é para ganhar menos, e o trabalho é chato… você tem certeza que quer vir?”. Claro que eu tive dúvidas, mas o objetivo era aprender, e então eu fui!

A experiência no banco me ensinou praticamente tudo que sei sobre mercado financeiro. E também foi ótima! Fui efetivada em 1 ano, pela primeira vez na vida comecei a ganhar um salário de classe média, com carteira assinada e carreira muito promissora. Mas tudo isso me deixou satisfeita? Infelizmente, ainda não. Eu sentia que precisava estudar mais. Que não tinha conseguido aprender tudo o que queria durante a graduação. E foi então que comecei a juntar dinheiro para poder me afastar do mercado de trabalho por um tempo e ir fazer o mestrado. Fiquei 1 ano estudando para a ANPEC e consegui ser selecionada também na USP.

 

Aí veio o mestrado…

A fase do mestrado foi a pior da minha vida! Percebi o quanto eu não sabia nada. Me sentia literalmente como no filme Tropa de Elite, com os professores apenas esperando para ver quem ia pedir pra sair primeiro. Mas, usando a palavra da moda, fui resiliente! Consegui concluir o mestrado e aprendi o que me parecia faltar aprender.

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No último ano do mestrado conciliei a elaboração da dissertação com o trabalho na FIPE, na equipe de Economia do Turismo. Lá eles tinham dados de pesquisas primárias aos montes, e pude aplicar várias das técnicas que aprendi ao longo do mestrado. Fiz reunião com o Ministério do Turismo, treinei pesquisadores de campo e fiz trabalhos que poucos economistas tem a oportunidade de fazer. E também foi uma ótima experiência! Até que o banco Itaú começou a me procurar com uma proposta promissora, e mudei de novo.

 

E agora?

Hoje, passados 3 anos em uma instituição financeira gigante como é o Itaú, paro novamente para questionar minha trajetória, voltando a flertar com o meio acadêmico. Sempre gostei de trabalhar no mundo empresarial, fertilizando negócios por meio da aplicação de ferramentas analíticas. Mas também gosto muito do universo acadêmico, onde cada ensinamento recebido ou transmitido me traz satisfação pessoal, e no qual as ideias estão sempre fervilhando. Será que é realmente necessário escolher um ou outro? Como diminuir o abismo existente entre a academia e o mundo empresarial?

Pois é gente… mesmo depois de 12 anos na carreira de Economista ainda estou em crise existencial. Mas foram sempre essas crises que me moveram para frente, me levaram para trajetórias acadêmicas e profissionais que me tornaram uma pessoa melhor. E que continue assim!

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