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Assim como os meus colegas de profissão Elson Santos,  Daniel Silva e Eliane Teixeira o fizeram recentemente, atendo ao pedido do meu grande amigo André Roncaglia para compartilhar com vocês um relato autobiográfico. A ideia não é ser fonte de inspiração para ninguém – mesmo porque a história pessoal de cada um importa e não necessariamente pode ser beneficiada por exemplos alheios – mas somente a de relatar algumas das minhas escolhas nos âmbitos profissional e acadêmico. A curiosidade de vocês em relação ao título acima será dissipada nas linhas abaixo.

 

O que você quer ser quando crescer? Sonhe alto e responda sem medo de que riam de você

Lembro-me muito bem da gargalhada coletiva dos meus colegas de classe quando eu tinha 10 anos e respondi à professora o que gostaria de ser quando crescesse: astronauta. Estávamos em meados dos anos 1980, ainda bombardeados por séries de TV, filmes e desenhos animados relacionados ao espaço, fruto das imaginações mais férteis que vivenciaram as conquistas tecnológicas dos anos 1960. Como não se lembrar dos poderosos encouraçados espaciais das séries “Galactica” e “Patrulha Estelar”? Isso, para não falarmos aqui de “Star Wars” e “Jornada nas Estrelas”.

Meus pais, de origem humilde e sem muita escolaridade, sempre incentivaram seus dois filhos a sonharem alto, mas de fato ser astronauta parecia impossível diante de duas realidades: (1) a de um país em que se esperava pelo menos seis meses na fila para conseguir uma linha telefônica e em que prevalecia o escambo diante da variação absurda de preços; e (2) a de um garoto da periferia da Zona Leste de São Paulo.

À medida que o tempo passa, o leque de interesses das crianças se amplia. Comigo, não foi diferente e deixei o sonho de ser o primeiro astronauta brasileiro ao Marcos Pontes. Crescia o meu interesse por navios de guerra, ao mesmo tempo em que nascia um futuro candidato a aluno da Escola Naval. De certa forma, comecei a perceber que as gigantescas naves de “Galactica” e “Patrulha Estelar” não eram nada mais do que porta-aviões espaciais. Creio que um marco para essa mudança de interesse esteja nos cinco primeiros minutos do filme “Top Gun, Ases Indomáveis”. O resto do filme valeu mais pela trilha sonora do que pela história contada, na minha modesta opinião.

 

O embrião da escolha profissional: Economia faz parte da rotina das pessoas

Naquele mesmo momento em que eu brincava de navios de guerra com caixas de sapato e adaptava um velho caminhãozinho de madeira para ser um porta-aviões nuclear, um tema do cotidiano começou a me chamar a atenção. No dia de pagamento de salário, os meus pais chegavam em casa com um envelope pardo abarrotado de cédulas. Na minha inocência infantil, parte daquelas notas poderia ser utilizada para comprar guloseimas na escola ou gibis, sem saber que aquele “bolo de dinheiro” nas mãos dos trabalhadores refletia um problema sério da economia brasileira da época.

Geralmente, os meus pais me davam muito menos do que eu imaginava ser necessário para atender aos meus desejos consumistas e, literalmente, corriam para o supermercado, dizendo que se deixassem para o dia seguinte trariam menos alimentos para casa. Para uma família de origem pobre como a minha, estava bem claro o conceito de restrição orçamentária, muitos anos que eu compreendesse o que é um lagrangeano.

No velho aparelho de TV preto e branco fui vendo com frequência que mais um plano econômico não funcionara, seja lá o que isso significasse para um adolescente do começo dos anos 1990. Quem só se conhece por gente depois de 1994 não consegue imaginar que mundo era aquele. Mesmo professores renomados de Economia não conseguiam domar aquele dragão feroz que aparecia nas capas de revistas e jornais todas as semanas. Aquele cenário despertou em mim uma certa curiosidade, que se converteu em desafio intelectual. Já não estava mais nos meus planos ser o sucessor do Almirante Tamandaré, ainda que a paixão por navios de guerra se mantivesse intacta.

Comecei a trabalhar aos 16 anos para ajudar em casa, primeiro como office-boy (é o que hoje se chama de contínuo). Depois de poucos meses de emprego, descobri o significado de uma outra variável macroeconômica, diante da falência da corretora de seguros em que trabalhava. Tive passagens pela linha de produção de uma estamparia e pelo balcão de um bar, até que prestei um concurso público e ingressei em uma grande empresa estatal.

Há uma grande vantagem e uma grande desvantagem na escolha por Economia como carreira

Alguns meses antes do meu ingresso na estatal e já com o ensino médio concluído, soube pela minha prima que havia um cursinho pré-vestibular gratuito e voltado para alunos carentes. De fato, o Cursinho da Poli representou, pela primeira vez na minha vida, uma possibilidade real de mudança para a classe média, ao criar a expectativa de que eu poderia ingressar em uma boa faculdade, gratuita, de preferência.

Ainda durante a minha fase de cursinho e já decidido a prestar o vestibular para a área de Economia, certo dia entrei na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP para procurar alguém que pudesse me falar da minha futura carreira. Fui muito bem recebido por um professor (que posteriormente me deu aula naquela Escola), que me deu detalhes sobre a estrutura do curso. A conversa terminou com o seguinte comentário por parte dele: “existe uma grande vantagem e uma grande desvantagem ao se fazer o curso de Economia. A grande vantagem é que dificilmente você ficará sem emprego. A grande desvantagem é que dificilmente você trabalhará como economista”. Só com o tempo compreendi aquela profecia. O curso de Ciências Econômicas traz uma formação sólida e abrangente, que capacita seus alunos a conseguir emprego em diversas áreas. Por outro lado, poucos formandos em Economia trabalham diretamente com cenários econômicos.

Com base escolar bastante fraca, precisei de dois anos de cursinho até que o meu sonho se materializasse na maior universidade do país. Estava chegando a um lugar no qual muitos dos meus parentes jamais poderiam imaginar que fosse possível.

 

Trocando o certo pelo duvidoso?

Já como aluno do quarto ano de curso, tomei a inimaginável decisão de pedir as contas da estatal em que trabalhava para ingressar na área econômica de uma consultoria estagiário. Se por um lado essa decisão foi favorecida pelo fato de que eu desempenhava uma função de nível médio (eu só tinha o segundo grau quando prestei o concurso), por outro estaria abrindo mão de um “seguro” mais relevante do que a relativa estabilidade que eu tinha naquela empresa de capital misto (portanto, estava trabalhando na condição de CLT).

Perdi o meu pai poucos meses antes da entrevista de estágio na consultoria, vítima de uma sequência de AVCs, mas o plano de saúde da empresa possibilitou que ele fosse muito bem atendido em hospitais de ponta, na condição de meu dependente. A partir de então, o meu receio passou a ser de que a minha mãe, também pudesse precisar de um apoio como aquele. Os riscos eram imensuráveis, mas o sonho pesou mais.

Ingressei em uma das maiores consultorias econômicas do país já no final dos anos 1990. O início não foi fácil. O período de adaptação foi longo, mas a generosidade por parte dos consultores com quem eu trabalhava foi determinante para que eu me tornasse um economista júnior depois de formado. Fiz apenas um ano e meio de estágio, o primeiro e único da minha carreira. Aprendi muito naquele período, que se tornou a base para tudo o que veio depois.

 

Primeira mudança de carreira: vivendo com uma renda três vezes menor

 O meu segundo emprego como economista foi em uma gestora de recursos associada a um banco global. Já formado, estava há um ano sem estudar, quando me deparei com um dilema: fazer ou não o mestrado? Mesmo como economista júnior, tinha alcançado uma condição material jamais atingida pelos meus pais e com perspectivas de continuar progredindo na carreira. Tudo conspirava para não sair da “zona de conforto” em que me encontrava, pois ainda ajudava muito em casa e queria dar uma condição de vida melhor para a minha mãe, uma mulher que trabalhou até os 70 anos de idade e que cuidou com carinho dos filhos. Ela teve a coragem de voltar a estudar depois de tempo, terminando o ensino médio com mais de 50 anos de idade. Era uma fonte de inspiração, fé e um grande exemplo para os que a cercavam.

A aprovação na ANPEC de 2001 (depois de um ano de cursinho preparatório) e a notícia de que conseguiria ingressar com bolsa no mestrado em Economia na FEA-USP no ano seguinte foram muito comemoradas. Tive a opção de fazer o mestrado trabalhando, sendo liberado apenas para as aulas. O dilema estava colocado, ao mesmo tempo em que me lembrei das inúmeras dificuldades que alguém enfrenta por trabalhar e estudar ao mesmo tempo. As palavras da minha mãe foram decisivas para tomar a decisão: “nunca desista dos seus sonhos, por mais difíceis que possam parecer”. Interrompi a carreira para viver com uma renda três vezes menor.

Ainda no primeiro ano de pós-graduação tive contato, pela primeira vez, com o ofício de professor. A experiência foi maravilhosa, ainda que desafiadora. Havia, a partir de então, uma opção adicional de carreira para depois da defesa da dissertação. Porém, quem chega ao final do mestrado com bolsa sabe o quão desejado é poder deslocar a restrição orçamentária para cima. Resolvi voltar ao mercado financeiro no final de 2004, pouco antes da minha defesa, com o objetivo de retornar à academia “em breve”. Ingressei na área econômica de um grande banco, como economista pleno.

 

Segunda interrupção de carreira: com família

No banco tive os principais avanços da minha vida profissional, tendo alcançado o posto de economista sênior e desempenhado quase todas as funções existentes em uma área econômica respeitada pelo mercado.

Em meados de 2014, ainda com grandes perspectivas profissionais, o que se chama de crise dos 40 (que pode vir um pouco antes, como no meu caso) manifestou-se de forma intensa. A decisão de interromper a carreira (pela segunda vez) naquele momento parecia ser mais difícil do que na época em que saí para o mestrado, não somente porque já não teria mais as palavras de incentivo de minha mãe, mas principalmente porque estava casado e com um filho de apenas 3 anos. A decisão não era óbvia (creio que não existam decisões óbvias o tempo todo), mas o sonho, mais uma vez, falou mais alto. Com o apoio incondicional da minha esposa e a generosidade do meu chefe, em 2015 comecei o tão sonhado doutorado, licenciado do banco, situação em que me encontro atualmente. Retornei à mesma casa em que fiz graduação e mestrado, a FEA-USP. Mais uma vez, optei em dar um passo atrás no que se refere à renda, em nome do meu sonho.

A receita de bolo para fazer um bom doutorado estava na minha cabeça. Afinal de contas, já tinha feito o mestrado, com excelente desempenho. A realidade, porém, mostrou-me que o custo de uma volta aos estudos depois de 10 anos (não tão “em breve” assim) é brutal. Creio que isso seja válido para qualquer um e em qualquer área de conhecimento ou nível de escolaridade. Como profissional de mercado financeiro, vivia em um mundo muito prático de área econômica e passei para uma rotina de listas de exercícios intermináveis, demonstrações complexas e rigor matemático. Descobri que o “tempo ótimo” entre o mestrado e o doutorado é inferior a dez anos, seja lá qual for esse tempo. Cabe a algum interessado estimar isso com algum modelo sofisticado, mas acredito que o resultado depende do momento de vida de cada um.

 

Nos problemas de Economia, minimizamos custos; na vida, dificilmente isso acontece

As coisas pareciam estar diferentes do que na época do mestrado, com uma visão de mundo sobre o que é uma pós-graduação em Economia aparentemente distinta do que a vigente há uma década. Talvez eu é que estivesse diferente. De fato, o então aluno de primeiro ano de doutorado também era um pai de família e, com um filho de apenas 3 anos de idade, já não podia contar com tantas horas semanais de estudo como alguém sem filhos. O custo familiar foi ainda maior porque a minha esposa também teve a sua crise dos 40, voltando a estudar depois de vários anos, partindo na mesma época para um mestrado em Administração. Ela, contudo, não interrompeu a sua carreira, o que torna a sua vida ainda mais difícil do que a minha.

Já se passaram dois anos desde a minha volta para a academia. Encerrei a fase de créditos das disciplinas. Apesar dos percalços que existiram nesse biênio, estou satisfeito com a minha escolha. Olhando para a frente, os desafios continuam gigantescos, com uma tese para ser feita de forma concomitante à retomada das minhas atividades profissionais nos próximos meses. Continuo, porém, com fé.

Só poderei contar o fim deste capítulo dentro de algum tempo e, independentemente do desfecho e apesar dos vários percalços ao longo dessa trajetória toda, a missão parece que está sendo cumprida, seja ela qual for.

Algumas vezes, precisamos ser como astronautas, que se lançam no infinito em busca de planetas distantes. Outras vezes, precisamos ser como capitães de navio, que enfrentam tempestades e perigos para chegarem a um porto seguro. Em ambos os casos, não estaremos sozinhos; sempre poderemos contar com uma tripulação amiga e com uma luz a guiar nossos passos.

Os sonhos podem ser adiados ou adaptados, mas existem para serem perseguidos, por mais distantes que possam parecer e por mais que saibamos que dificilmente conseguiremos minimizar custos ao longo da vida.

 

Robson Pereira é economista e doutorando em Teoria Econômica (FEA-USP).

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