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Caros leitores e leitoras, no fim de 2016, quando Donald Trump venceu as eleições presidenciais norte-americanas, escrevi um texto nesse blog que amenizava o resultado. Por que esperava que o candidato fosse apenas um personagem e, assim, quando sentasse na cadeira de presidente, agiria como um. Não aconteceu. O candidato bonachão, grosseiro, que ignora os protocolos da política tradicional e defende ideias absurdas continua o mesmo como Presidente.

E agora? Vamos refletir sobre o que estava errado na análise.

O primeiro ponto foi subestimar a capacidade do Presidente norte-americano em criar instabilidade ao agir por conta própria. Ao mesmo tempo, superestimar o papel das instituições, sociedade civil, congresso e justiça em estabelecer mecanismos e incentivos para tornar ação do executivo previsível e limitar seu comportamento. Também sendo esperado que o Presidente trabalhe para responder aos anseios do Partido que lhe deu suporte, trabalhe para manter a base no congresso, respeite e defenda a Constituição, liberdades individuais e direitos civis. Dentro desse ambiente, o Presidente possui condições de governar e implementar em alguma medida seu programa, respeitando as restrições que lhe são impostas pelo sistema.

A lógica faz sentido na medida em que os presidentes norte-americanos do último século se adequaram a esse sistema. Independentemente de serem democratas ou republicanos. Já que essa era a regra do jogo[1]. Além disso, o Presidente em si possui pouco poder de decisão e, assim, confrontar o Congresso, a Justiça e a sociedade civil organizada seria um desgaste desnecessário e custoso. Portanto, antes de chegar ao confronto direto, a estratégia ótima consiste em buscar o diálogo e um denominador comum.

Agora sabemos que não é bem assim. Os pontos fora da curva podem ocorrer, a capacidade de um Presidente como Trump criar instabilidade é muito elevada e o sistema não sabe como lidar com isso. O que sugere uma fissura na sociedade norte-americana em relação ao sistema político, representatividade e estrutura de governo em que não se entende bem da onde vem e quais suas consequências.

O que temos agora é um presidente norte-americano que ignora os protocolos de relacionamento interno e externos, prefere usar palavras intempestivas, patrulhar empresas, países e políticos, acusar a mídia e achar bandidos, construir argumentos com base em dados que não existem e governar pelo twitter. O comportamento coerente com o personagem, mas não para um cargo de tamanha importância em que cada palavra possui impactos observáveis ou não.

Esse modo de governar gera instabilidade na medida em que os agentes possuem dificuldades em identificar e interpretar a sinalização do Presidente. Assim, ninguém sabe o que ele quer, o objetivo de longo prazo e nem o que de fato irá fazer. Isso verificado enquanto era candidato eleito e, ao que parece, ganhou força quando tomou posse.

Na política externa, as ligações para líderes estrangeiros na primeira semana de posse foi um show de horrores. Por que Donald Trump adota o tom de ameaça, buscar ganhar no grito e barganhar como se fossem com fornecedores de uma obra ou como se estivesse no “O Aprendiz”. A relação entre países não funciona assim.

O tom agressivo é considerado desrespeitoso e, geralmente, adotado por países pequenos, fechados e que tenham poucos interesses no estrangeiro. Já que objetivo é ser usado para consumo interno. No entanto, a regra para maioria dos países é que as relações internacionais e as negociações com outros países sejam extremamente formais e sempre ponderadas. Isso quer dizer que cada palavra, tom usado e virgula possuem um significado que é uma sinalizada para ser lida pelos negociadores. Assim, indicar o caminho da relação, negociação e possíveis resultados.

No aspecto econômico e comercial, o tom agressivo de Trump cria uma sombra de instabilidade em relação ao cumprimento de acordos, política comercial, cooperação, tarifária e não-tarifária. Dessa forma, as empresas e os países são levados ao compasso de espera e lançam estratégias defensivas. Já que não sabem em que medida é uma ameaça crível ou apenas um jogo de cena. Por exemplo, os investimentos no México foram prejudicados devido a ameaça de taxação de importação por parte dos EUA e renegociação do NAFTA. Dessa forma, especialmente na área automotiva, as montadoras paralisaram investimentos por não saberem se poderão exportar para os EUA nas mesmas condições de hoje. O governo mexicano é pressionado para redesenhar estratégia de política comercial na busca de novos parceiros e acordos. Nas entrevistas, o Presidente do México, Peña Nieto, apresenta o semblante constrangido de alguém não sabe como agir. Ainda que antes da eleição norte-americana, Peña Nieto buscou aproximação com os dois candidatos, Hillary e Trump, já que os EUA são fundamentais para México.

Em momento algum disse que Hillary Clinton seria uma opção muito melhor, mas que seguiria as convenções do sistema. Além disso, Clinton é uma conservadora, sem propostas que possam ser chamadas de conservadoras ou progressistas seja na economia ou social, possui tendências belicista, intervencionistas e uma vida pública cinzenta. Não há comparação com a capacidade do Obama conquistar corações e mentes, nem de construir apoios e fazer aliados como Joe Biden. O Biden era um dos favoritos para ser candidato do Partido Democrata. Esse senhor abaixo[2].

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De outro lado, no Partido Republicano, Marco Rubio ou Jeb Bush seriam o contrabalanço ao governo Obama. Assim, como Obama esteve para George W. Bush e, mais atrás, George W. Bush foi para Bill Clinton. Nenhum deles romperia com sistema.

No próximo texto vamos aprofundar discussão sobre política, negociações comerciais e blocos econômicos. Temas relevantes na medida que a geografia comercial e de integração da estrutura produtiva está mudança passo acelerado com efeito Trump.

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[1]Lembrem que liberal é no sentido de defender liberdades individuais e direitos civis, que não são estáticos, estão bem longe de idolatrar o Deus mercado e não encaixam na divisão superficial direita vs esquerda. Ao contrário. Essa perspectiva é a base das democracias e instituições de estado ocidentais ou de inspiração ocidental, sendo base para partidos moderados de direita ou esquerda.

Por exemplo, Emmanuel Macron, candidato centrista na França e que veio da Partido Socialista, coloca como prioridade da campanha e plataforma de governo defender liberdades individuais e direitos civis em que propõe resgatar tradição liberal francesa, mas que se chamaria de conservador na economia em que defende a União Europeia. E vem conquistando apoios entre eleitores mais direita, esquerda e centro. Na realidade, o Macron é o contraponto a candidata da extrema direita Marianne Le Pen.

Can Emmanuel Macron win the French election? < https://www.theguardian.com/world/2017/feb/03/can-emmanuel-macron-win-the-french-election >

O Macron não é tão diferente de partidos de centro direita como da chanceler alemã Angela Merkel, primeira-ministra britânica Theresa May ou, mais esquerda, como primeiro-ministro canadense Justin Trudeau. Tudo bem que Theresa May foi forçada tolerar radicais que eram a favor do brexit dentro do governo, mas se mantém ponderada.

[2]Joe Biden foi um vice-presidente e aliado fundamental para Obama. Ele que articulava apoio dentro do Partido Democrata, Republicado e no congresso por que era respeitado e tinha um trânsito muito bom. Também era visto como possível candidato alternativo do Partido Democrata, mas problemas pessoais e a morte do filho impossibilitaram a candidatura.

Não só gosta de carro. Ele entende e é o seu hobby. Abaixo uma volta com Chevrolet Corvette 1967.

 

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