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Recentemente, o debate sobre o nível da taxa de juros no Brasil gerou acusações de “patrulha” sobre André Lara Resende, o provocador original da controvérsia. Ao levantar a dúvida sobre a eficácia da política monetária em debate público, Lara Resende mexeu num caldeirão de antigas “mágoas” intelectuais entre ortodoxia e heterodoxia, salientando, dentre outras coisas, que é um erro acreditar que há homogeneidade de posições dentro do mainstream econômico.

lara_resende_2017

Elio Gaspari e Fernando Dantas levaram o combate para o campo jornalístico. O primeiro alegando “patrulha” sobre Lara Resende, enquanto Fernando Dantas interpretou as intervenções como “questionamento saudável” de colegas de profissão que dele discordam em uma mais dimensões de sua intervenção.

Neste sentido, pus-me a refletir sobre a sutileza da prática da “patrulha”, seja ela ideológica em termos políticos, seja no plano teórico. Devo confessar que definir patrulha se mostrou uma tarefa pouco trivial.

Uma Proposta de Taxonomia

Submeto ao crivo de vocês a seguinte taxonomia, colocando “patrulha” como meio termo entre “questionamento saudável” e “censura”. Aí vai:

  • questionamento saudável: avaliação de argumentos em seu devido contexto teórico-analítico, testando-se sua consistência interna e sua aderência aos dados observados na realidade, bem como avaliando suas implicações em termos de política econômica;
  • patrulha : questionamento da conveniência política de se manifestarem determinadas opiniões, conveniência esta medida em termos do apoio às forças (intelectuais) políticas influenciando a política econômica;
  • censura: impedimento da manifestação aberta de opinião que questiona e deslegitima o poder instituído, seja ele acadêmico, políticos ou econômico, sob pena de punição nos referidos espaços sob censura.

Assim, “patrulha” parece ser uma categoria híbrida, que combina censura e questionamento saudável; ou seja, debate-se abertamente o argumento com uma implícita “punição” ao autor, que parece ser uma “ameaça” de desprestígio intelectual pela aliança, ainda que provisória e hipotética, a ideias consideradas “perigosas” do ponto de vista político. A parte “implícita” é importante, pois dá o recado tacitamente sem deixar “provas concretas” do ato socialmente embaraçoso da “censura”.

Este post é apenas a primeira parte de uma reflexão que pretendo apresentar aqui, baseando-se em meus estudos sobre história das ideias econômicas. Buscarei revelar algumas faces interessantes – e pouco conhecidas dos economistas – da dinâmica interna à ciência econômica referente à delimitação dos problemas de pesquisa considerados prioritários.

Como veremos, há mais de comunitário na produção da ciência do que corriqueiramente conseguimos enxergar. O episódio Lara Resende ilustra o complexo funcionamento da profissão do economista. No próximo post, prometo entrar mais detalhadamente nos argumentos arrolados neste debate. Até la!

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