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A esta altura, todo mundo já está sabendo do que trata o controverso artigo de André Lara Resende, publicado no Valor Econômico em 13 de janeiro de 2017. O artigo é longo e confuso, mas sua elegância causa um certo deslumbramento estético no leitor que pode facilmente perder o fio da meada. É certamente – mas não apenas – uma brilhante peça de retórica econômica.

Em essência, o argumento é o seguinte: mediante a resistência da inflação à elevada taxa de juros, teria ficado nítido que o problema da inflação brasileira é o descontrole fiscal. Como o elevado nível da taxa de juros onera o orçamento, gerando déficits nominais que elevam a dívida pública ainda mais, a política monetária estaria reforçando – em vez de controlar – a elevação dos preços. Logo, a política monetária está dificultando o ajuste fiscal desinflacionário. Conclui o autor que a teoria que embasa a atuação do Bacen deve estar errada.

Lara Resende encontra uma teoria com as “claras credenciais analíticas” na tradição da escola de Chicago. O ex-professor desta escola John Cochrane (agora em Stanford) publicou um artigo recentemente em que verifica uma hipótese bastante específica sobre a eficácia da política monetária em cenário de iminente deflação (ver um resumo aqui). O próprio Cochrane desaconselha usar a política monetária como suporte anterior da política fiscal no Brasil, como o fez Lara Resende (a entrevista de Cochrane pode ser lida aqui). Seu modelo seria aplicável apenas a “economias tranquilas”, não em crise como a brasileira.

Com isso, Lara Resende ecoa a discussão em voga no hemisfério norte, onde está passando um tempo como pesquisador visitante (EUA).  Ao importar a discussão ao Brasil, com o sinal da derivada invertido, acabou mexendo num vespeiro ideológico revestido de jargões impenetráveis aos não-iniciados.

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Em entrevista à revista Exame, Lara Resende deixou clara a mensagem do artigo original: sem ajuste fiscal, não há saída! É, portanto, curioso ele atribuir  “conservadorismo intelectual” aos economistas brasileiros, enquanto prega uma ideia – e uma teoria – ainda mais conservadora, como reconheceu Chico Lopes, ex-colega de governo e de PUC-RJ de Lara Resende.

Em outros termos, trata-se de um conflito entre dois tipos de monetarismo. É uma briga bastante específica, mas com fins idênticos. O problema central diz respeito a qual mecanismo de gestão da moeda seria o essencial no efetivo controle da inflação, a saber: âncora fiscal ou âncora monetária.

À margem dos detalhes técnicos, a velha Economia Política Clássica ajuda a compreender o alvoroço causado pelo artigo. Ao escrever um artigo criticando a autoridade monetária, Lara Resende levantou dúvidas sobre a única esfera de governo que detém alguma credibilidade em meio à devastadora crise política atual.

A reação animosa dos colegas na imprensa especializada se desdobra, portanto, em dois planos sobrepostos e não-excludentes: um teórico e outro político.

Dando continuidade ao post anterior, em que indago se houve “patrulha ou questionamento saudável”, é possível dizer que as duas posições atuaram organicamente (e até coordenadamente) no debate, muito embora com escribas diferentes.

Trocando em miúdos, a estratégia retórica da patrulha foi alegar a irresponsabilidade de veicular ideias sem fundamento teórico consagrado pela comunidade acadêmica. O termo “experimentalismo” é amiúde adotado para desqualificar uma hipótese que aspira a se diplomar teoria.

Vejamos, a seguir, as evidências em favor da hipótese de “patrulha instrumentada por questionamento saudável”.

 

Academia vs. Debate Público

Armínio Fraga comentou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que a reflexão de Lara Resende deveria ter-se confinado ao debate acadêmico. Por se tratar de uma assunto árido e complexo, seu vazamento para o debate público correria o risco de insuflar as forças incontroláveis da heterodoxia recém-removida do poder. Ao ser questionado sobre os pontos de discordância, Fraga desconversou : “É um debate muito especializado, que está longe de levar a conclusões definitivas. Como diz um ditado, e sendo prático, essa discussão tem ideias boas que não são novas e ideias novas que não são boas”.

A reação de Fraga fazia coro à conclusão do hermético (quase eclesiástico) artigo de Eduardo Loyo para o Valor, em que o autor conclui com o que aparenta ser a genuína motivação do escrito:

Por mais engenhoso e intelectualmente estimulante que possa ser enquanto linha de pesquisa acadêmica, por mais precoce que seja sua popularidade em certas regiões da blogosfera, e por mais tentadora que soe, no Brasil de hoje, sua promessa de obter da redução rápida dos juros impulso de curto prazo à atividade econômica e ajuda na convergência da inflação, o neofisherianismo ainda é exploratório e marginal demais no corpo da ciência econômica para avalizar o mergulho numa política monetária experimental, norteada pela total contraversão do senso comum.

José Júlio Senna também questionou o intento de Lara Resende, normatizando que “a presente discussão teórica deveria permanecer como tal, não cabendo levá-la para o mundo real”, seja aqui, seja acolá; e mais:

A aplicação da teoria à realidade brasileira parece ainda mais inapropriada. Cochrane não faz referência a juros reais, aspecto que verdadeiramente se debate no Brasil. Sua análise diz respeito a juros nominais. Dependendo de como se apresente a discussão no Brasil, transmite-se a ideia de que é possível resolver, sem custos, tanto o problema da inflação quanto parte de nossos problemas fiscais, bastando para isso derrubar a Selic. É inadequado levar o público e o meio político a acreditarem nessa possibilidade, em particular quando a sociedade tem de enfrentar pesada carga de indispensáveis ajustes macroeconômicos

A “saudável contestação intelectual” em termos técnicos acaba deixando entrever o viés político das intervenções em debates públicos. As manifestações de Loyo, Pessoa e Lisboa e Fraga buscavam “vacinar” o debate contra o que viria a seguir: o reforço positivo de antigas posições heterodoxas, vistas por Loyo como experimentalismo ainda não comprovado.

 

O “Xis” da questão

Senna deixa entrever o que parece ser um dos gatilhos da controvérsia, o foco na questão fiscal de Lara Resende:

Por fim, André Lara registra os esforços do governo Temer em promover o equilíbrio de nossas contas públicas. E os resultados já estariam aparecendo, havendo sinais de convergência da inflação para a meta. Nenhuma palavra sobre as ações do BC nos últimos sete meses, sem as quais esses sinais de convergência não existiriam. Que o fiscal é indispensável para conseguir esse resultado, não há dúvida. Mas isso não justifica desconsiderar os efeitos da atuação do Banco Central.

Ao fim e ao cabo, este palavrório todo não passa de uma disputa de “facções” acadêmicas e teóricas aliadas à ortodoxia por “lugares de fala” para ventilar seus posicionamentos políticos com o verniz do método científico, tornando mais eficaz a sua influência sobre a política econômica.

Apesar de parecer jocosa a afirmação anterior, este é o comportamento típico de várias profissões no processo de estabelecimento das questões centrais em suas respectivas disciplinas, como mostrou o Prof. Pedro Garcia Duarte em artigo sobre a formação do consenso macroeconômico atual. Ou seja, a agenda de pesquisa, as perguntas que devem ser feitas, decorrem de um processo de seleção e negociação entre as “facções” acadêmicas alinhadas a diferentes vertentes teóricas.

Traduzindo: Se as ideias movem o mundo, é importante selecionar bem quais ideias serão discutidas, impondo limites razoáveis à transmissão dos debates acadêmicos para a esfera pública, sob pena de alimentar forças políticas contrárias à visão de mundo que embasa as ideias contestadas.

 

Veredito

Assim, concluo que houve uma tentativa – ainda que inconsciente e não generalizada – de constranger o debate aberto sobre o nível da taxa de juros no Brasil. O primeiro front do conflito intra-monetarista – analisado aqui – foi a defesa institucional do Bacen e do regime de metas de inflação.

O segundo front diz respeito à prevenção de fortalecimento político de facções “estrangeiras” ao mainstream que pode resultar da divisão interna. Mas este fica para o próximo post.

Boa semana e bom carnaval!

 

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