Em idos de 2009 e 2010 entrei na onda de otimismo sobre o Pré-Sal e da perspectiva do Brasil se tornar uma grande potência exportador de petróleo e derivados, além de poder se estabelecer como líder na área de biocombustíveis. Passada quase uma década, isso não aconteceu e não parece que ocorrerá[i].

Nessa curta série de três artigos, vou explorar os motivos que me levaram a reconhecer que a análise que fiz na época foi equivocada e que o mundo tomou rumos bem diferentes do esperado. Assim, a série de artigos é baseada em três partes:

  • Parte 1 – Por que o preço do petróleo era alto na década de 2000;
  • Parte 2 – A revolução da energia de fontes renováveis, sobretudo, solar e eólica;
  • Parte 3 – As implicações sobre o Pré-Sal, a Petrobras e o futuro.

O grande erro foi ignorar dois pontos. O primeiro sobre como as particularidades da década de 2000 explicavam em grande parte a elevação do preço do petróleo e dos combustíveis fósseis. O segundo que o maior preço do petróleo e dos combustíveis fósseis impulsionaram a revolução tecnológica e a mudança do direcionamento da política energética que contribuíram para o barateamento da energia de fontes renováveis.

Por que o preço do petróleo era elevado na década de 2000?[ii]

Na década de 2000, a ideia comum era que o petróleo barato tinha acabado e, portanto, a perspectiva era que as cotações mantivessem o nível de preço ou subissem. Isso se mostrou equivocado. O motivo é que particularidades da década de 2000 e começo dos anos 2010 contribuíram para o maior nível de preços (ver Gráfico).

Gráfico – Evolução do preço do petróleo no mercado internacional

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Fonte: FMI; Crude Oil (petroleum), Price index, 2005 = 100, simple average of three spot prices; Dated Brent, West Texas Intermediate, and the Dubai Fateh

Entre as particularidades podemos citar: i) crescimento econômico mundial; ii) boom das commodities; iii) instabilidade política e social no Oriente Médio.

O crescimento econômico disseminado nos países desenvolvidos e em desenvolvimento impunha uma maior demanda por energia. E, portanto, contribuindo para maior demanda por combustíveis fósseis baseados em petróleo, gás natural e carvão mineral. O petróleo voltado mais para transporte e aquecimento. Já gás natural e carvão mineral para geração de energia por termoelétricas.

Um ponto importante é que nos anos 1990s, o baixo custo dos combustíveis fósseis e a frouxidão da legislação ambiental contribuíram para persistência de tecnologias menos eficientes. Por exemplo, a proliferação de termoelétricas baseadas em carvão mineral, especialmente na China, como opção barata de elevação da produção de energia. Ou carros e caminhões com motores maiores, mais potentes e de maior consumo que satisfaziam o consumidor.

O boom das commodities refletia o crescimento econômico e a maior demanda por insumos, cuja pressão era provenientes da China e do Sudeste Asiático, incluindo combustíveis fósseis. O motivo é que a capacidade de produção era relativamente estável e era necessário maior tempo para o planejamento e conclusão de investimentos que aumentassem a oferta internacional.

A instabilidade política e social no Oriente Médio e nas proximidades foram impulsionadas pela Invasão do Iraque em 2003. Posteriormente, se espalhando para os países vizinhos e do Norte da África, somados a imposição do isolamento ao Irã. Ambos os movimentos criavam a incerteza em relação ao fornecimento de petrolíferos e da proteção de investimentos estrangeiros.

Esses três elementos perderam força a partir da crise financeira internacional de 2007-08. Por que ocorreu uma desaceleração do crescimento econômico, contribuindo para a menor demanda por commodities e petrolíferos. Assim, o petróleo manteve a estabilidade de preços entre 2010 e 2014, mas seguida por uma forte tendência de baixa na medida que a economia mantinha menor ritmo.

Ao mesmo tempo, o elevado preços dos petrolíferos e o risco político dos grandes produtores, motivou a busca de alternativas para petróleo e gás natural. Nesse sentido, a política energética norte-americana forçou o aumento da produção de petrolíferos nacionalmente a partir do beneficiamento do betume e do fraking. Em parte, seguido por outras regiões de forma mais limitada. Além de intensificar políticas de incentivo ao etanol e biodiesel. O efeito foi minimizar os efeitos negativos da instabilidade política e social local sobre o preço internacional[iii].

Os elementos que incentivavam a elevação e a manutenção do preço do petróleo em elevados se esvaíram, também acompanhado pelos preços do gás natural e carvão mineral. O mapa da produção mundial mudou ao incluir os EUA e Canadá como grandes produtores, elevando a oferta internacional frente a estabilização ou queda da demanda. Além disso, ocorreu uma mudança de tecnológica na produção e uso da energia que começou a ter resultados na década de 2010, cujos impactos são sentidos no crescimento na participação das energias renováveis, especialmente solar e eólica.

No próximo artigo vamos explorar o que é essa mudança tecnológica, direcionamento da política energética e a legislação ambiental.

[i]Um dos exemplos de artigos

Exploração das reservas petrolíferas do Pré-Sal, papel da Petrobras e os novos marcos regulatórios

http://www.researchgate.net/publication/277185323_Exploracao_das_reservas_petroliferas_do_pre-sal_papel_da_Petrobras_e_os_novos_marcos_regulatorios

Admito que me ajudou a frequentar alguns congressos e entrar em contado com a área que trabalho atualmente.

 

[ii]Existe uma ampla literatura que envolve a discussão sobre preço do petróleo. Por exemplo, impacto sobre crescimento econômico, flutuações de curto prazo e determinação da taxa de câmbio, sustentabilidade fiscal, função de produção e eficiência, meio ambiente e impacto ambiental.

HAMILTON, James D. (2013) Oil Prices, Exhaustible Resources, and Economic Growth. In: Handbook on Energy and Climate Change, p. 29-63, edited by Roger Fouqet, Cheltenham, United Kingdom: Edward Elgar Publishing.

FERRARO, Domenico; ROGOFF, Kenneth; ROSSI, Barbara. (2012). Can Oil Prices Forecast Exchange Rates? Disponível em: < http://www.nber.org/papers/w17998 > Acesso em: 15 jan. 2017.

[iii]A exploração e beneficiamento do betume e o fraking possuem um elevado custo ambiental que serve como argumento para que não sejam consideradas alternativas ao petróleo convencional. Inclusive ocorreram proibições em diversos países e regiões ou protestos nos países em que as operações foram aprovadas

DW. Cada vez mais em uso, fracking tem prós e contras. Publicado em: 21 de março de 2013. Disponível em: < http://www.dw.com/pt-br/cada-vez-mais-em-uso-fracking-tem-pr%C3%B3s-e-contras/a-16676973 >

 

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