O debate sobre o “fôlego” da economia brasileira encontra-se na ordem do dia. Desde o início da recessão, a partir do segundo trimestre de 2014, muitas visões sobre a crise foram publicadas. Divergências, quando se trata de avaliar fenômenos complexos, são naturais, saudáveis e bem-vindas. Essa discussão é muito relevante quando buscamos debater reformas institucionais.

Pnad Contínua fev. 2017

Em um instigante artigo publicado na “Finance & Development”, de junho de 2016, Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, e Davide Furceri, todos do Departamento de Pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI), trazem reflexões sobre o neoliberalismo (aqui). Para os respectivos pesquisadores, “em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, comprometendo a expansão duradoura”. A agenda neoliberal se apoia sobre dois pilares básicos: a desregulamentação de mercados e a limitação da capacidade dos governos de gerir déficits fiscais e acumular dívidas.

Há certos aspectos da agenda neoliberal que não cumpriram o que prometeram. Os economistas do FMI citam efeitos de duas políticas dessa agenda, a liberalização dos movimentos de capitais e a austeridade fiscal. Em síntese, os custos do aumento da desigualdade social podem revelar as distâncias entre efeitos de crescimento e de equidade, sendo que o aumento da desigualdade prejudica o nível da sustentabilidade do crescimento. Ainda que o crescimento econômico seja o principal objetivo da agenda neoliberal, os seus defensores terão que prestar atenção aos efeitos distributivos.

Nesse sentido, deve ser motivo de preocupação o tom das reformas institucionais propostas no Brasil. Afinal, o processo vivido de desindustrialização prematura desde meados dos anos 1980, intensificado a partir de 1994, afetou o “fôlego” da nossa economia. O fim do ciclo de expansão baseado em crédito, commodities e consumo demanda respostas consistentes com o país melhor que queremos um dia ser.

Voos de galinha foram experimentados desde a redemocratização e eles não nos levaram muito adiante. Continuamos subdesenvolvidos e muito desiguais. A sobrevalorização cambial crônica do real integra o drama nacional e ela está correlacionada com os desempenhos ruins da indústria de transformação e da produtividade sistêmica da economia. Em tempos de reformas institucionais, é preciso aprofundar a discussão qualificada e evitar reproduzir a mesmice de um passado que mais parece um eterno retorno.

 

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