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O professor de economia da UnB, José Luís Oreiro publicou em sua página no facebook uma breve reflexão acerca da relação entre salário real e câmbio real, alinhavando a posição novo-desenvolvimentista liderada por ele, Bresser Pereira e Nelson Marconi, Paulo Gala, para citar apenas alguns.

O texto é bastante didático e ganha mais relevância após o anúncio por parte do governo federal de reajuste do salário mínimo para R$ 979 (notícia aqui). Por isso, vamos reproduzi-lo abaixo, com a autorização de seu autor. Boa leitura!

Sobre a relação entre salário real e câmbio real

Por José Luís Oreiro

1- É impossível produzir uma desvalorização da taxa real de câmbio sem uma redução do salário real e/ou das margens de lucro das empresas.

2 – Assumindo que o objetivo da desvalorização cambial é aumentar a rentabilidade dos investimentos no setor industrial, então uma redução do salário real será a consequência inexorável da desvalorização do câmbio real.

3 – Uma desvalorização bem sucedida e permanente da taxa real de câmbio irá induzir, no médio prazo, uma mudança na composição da produção na direção de produtos manufaturados. Essa mudança estrutural permitirá uma aceleração do ritmo de crescimento da produtividade do trabalho no médio e no longo-prazo.

4 – Como resultado da aceleração do ritmo de crescimento da produtividade do trabalho, o salários reais passarão a crescer mais rapidamente em comparação com o que ocorreria no caso em que a mudança estrutural não tivesse ocorrido.

5 – Daqui se segue que a redução do salário real é um fenômeno temporário, ou seja, após um certo intervalo de tempo cuja extensão depende da queda inicial do salário real e do aumento subsequente do ritmo de crescimento da produtividade, o nível de salário real será mais alto do que ocorreria caso a mudança estrutural não tivesse acontecido.

6 – Mecanismos de indexação dos salários a inflação passada tornam o salário real rígido, impedindo o ajuste da taxa real de câmbio que é necessário para o ajuste estrutural. Nessas condições, se o governo insistir na desvalorização cambial, o resultado será uma aceleração contínua da taxa de inflação, terminando num processo hiper-inflacionário.

7 – A regra atual de reajuste do salário mínimo no Brasil, ao indexar os salários a inflação passada, atua no sentido de inviabilizar o necessário ajuste da taxa real de câmbio. Além disso, ao atrelar o ganho real de salários ao crescimento do PIB ao invés do PIB per-capita, acaba produzindo um aumento insustentável dos salários no médio prazo, pois estes irão crescer mais rapidamente do que a produtividade do trabalho.

8 – A mudança estrutural necessária para a retomada do crescimento da economia brasileira requer algum tipo de “moderação salarial”, a exemplo do que foi feito na Alemanha no período 1995-2005 e mais recentemente na Espanha. Essa moderação salarial é necessária para devolver a competitividade preço da indústria de transformação, passo necessário para se construir a competitividade extra-preço no médio e longo-prazo.

9 – Moderação salarial não pode ser imposta aos trabalhadores, mas deve ser negociada no âmbito de um grande pacto nacional pró-desenvolvimento. Esse pacto precisa reunir empresários industriais e a tecnocracia estatal.

10 – Empresários industriais devem se comprometer a realizar investimentos na modernização das instalações produtivas em troca da aceitação de menores reajustes de salários por parte dos sindicatos. O Estado deve se comprometer a aumentar os investimentos em infraestrutura para acelerar a mudança estrutural.

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