A nova edição da pesquisa Barômetro Político, realizada pela consultoria Ipsos, aponta que 75% dos entrevistados classificaram como ruim ou péssimo o governo federal e apenas 4% disseram ser esse um governo ótimo ou bom; 92% veem País no rumo errado. Nesse complexo contexto de desconfiança generalizada nas instituições e de crise de representação política, algumas questões presentes na Greve Geral do dia 28 de abril e no Primeiro de Maio merecem maior reflexão.

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Relendo o capítulo 17 do clássico “História da riqueza do homem”, de Leo Huberman, destaco a seguinte passagem: “os economistas da época da Revolução Industrial desenvolveram uma série de leis que, diziam, eram tão válidas para o mundo social e econômico como as leis dos cientistas para o mundo físico”. Portanto, completa Huberman, “se os homens fossem inteligentes e agissem de acordo com os princípios que expunham, muito bem; mas se não, e agissem sem respeito às suas leis naturais, sofreriam as consequências”. No geral, era possível dizer que essas supostas “leis naturais” representaram boas notícias para os mais abastados porque os pobres eram responsabilizados pela sua pobreza.

As ideias da economia política clássica eram bem favoráveis aos negócios e elas refletiam o contexto histórico. Segundo ponderou Huberman, “os ingleses podiam e estavam prontos a cobrir a terra com os produtos de suas fábricas. Portanto, o comércio internacional livre lhes servia”. Por esse mesmo motivo, essa política não atendia aos negócios de outros países. Os casos dos EUA, sob a influência de Alexander Hamilton, e da Alemanha, influenciada por Friedrich List, são citados no respectivo capítulo do livro.

Do ponto de vista das análises das assimetrias na relação entre capital e trabalho, Karl Marx se destacaria no período clássico. Ainda que se possa discordar de Marx, a “luta de classes” esteve presente nos conflitos e nas negociações políticas que garantiram direitos sociais e cidadania. O Dia Internacional dos Trabalhadores tem a sua data no dia da primeira manifestação de 500 mil trabalhadores nas ruas de Chicago, numa greve geral em todos os Estados Unidos, em 1886. Até então, os trabalhadores não exigiam direitos, apenas trabalhavam.

Para o cientista político André Singer, a frase dita pelo bilionário norte-americano Warren Buffett, em 2006, sintetiza ainda muito bem os tempos sombrios que vivemos no presente (clique aqui). Segundo afirmou o investidor, “existe, sim, guerra de classe, mas é a minha classe, a classe dos ricos, que está fazendo guerra, e estamos ganhando”. Mais recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI), na recente edição do “Fiscal Monitor”, reconheceu que o 1% mais rico ganhou dos “outros 99%” em termos de crescimento da renda nos últimos trinta anos nos países desenvolvidos.

O FMI afirma que os salários não têm acompanhado a produtividade em muitos países nas últimas três décadas, algo que levou ao declínio relativo da participação do trabalho na renda nacional. Progresso técnico e integração comercial global respondem por esse processo, sendo que as pressões sociais por políticas voltadas para “dentro” estão crescendo nas economias avançadas. Nesse sentido, é muito preocupante o tom e a urgência das reformas institucionais propostas no Brasil, que se encontra imerso em uma grave crise política.

Reformas institucionais devem ser feitas nos países de tempos em tempos para melhorar a vida das pessoas e propiciar efetivamente um novo ciclo de desenvolvimento. As necessárias discussões demandam aprofundamentos, debates plurais e tempo para maturar. Infelizmente esse não vem sendo o caso no Brasil.

Em um instigante artigo de junho de 2013, o escritor Luís Fernando Veríssimo ponderou que “no Brasil, tanta coisa está errada há tanto tempo que qualquer figura, atual ou histórica, serve como símbolo da nossa desarrumação intolerável, na falta de um De Gaulle”. Logo adiante ele citou uma reflexão de Marx: “se uma nação inteira pudesse sentir vergonha, seria como um leão preparando seu bote. Uma nação envergonhada dos seus políticos e das suas mazelas está inteira nas ruas. Resta saber para que lado será o bote desse leão”. Desde junho de 2013 a crise se aprofundou entre nós.

 

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