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Sempre recebo mensagens de estudantes e leitores reclamando do tamanho do Estado brasileiro e como ele gera ineficiências. Em geral, a partir de seu entendimento da economia (muito influenciado pela escola austríaca), alegam que tudo que é bom vem da iniciativa privada e o que é ruim é causado pelo Estado. Aqui vai, portanto, uma provocação à reflexão!

Tamanho do Estado e Abertura Comercial

Em 1978, David Cameron (que não é o primeiro ministro britânico) publicou um artigo em que mostrou haver uma relação positiva entre o tamanho do Estado e o grau de abertura comercial da economia. Com uma amostra de 18 países mais ricos do mundo (OCDE), Cameron encontrou uma correlação de 0,78. Ou seja, os países mais ricos tinham governos gastando uma parcela significativa da renda nacional.

Cameron argumentou que economias mais abertas têm maiores taxas de concentração industrial, o que tende a promover uma maior sindicalização da força de trabalho, maior escopo de negociações coletivas e centrais trabalhistas mais fortes. Estas, por sua vez, resultam em maiores demandas por transferências governamentais – seguridade social, pensões, seguro-desemprego, formação profissional, etc. – as quais mitigam o risco externo.

O professor Dani Rodrik, de Harvard, ficou incomodado com o resultado que parecia contradizer o “senso comum” liberal de que economias mais eficientes e com maior sucesso no comércio internacional tinham Estados menos intervencionistas. Rodrik mergulhou no tema, atualizou os dados, controlou por todas as variáveis que lhe vieram à mente e chegou à mesma conclusão de Cameron.

No artigo de 1998, no NBER, “Por que países com maior abertura comercial tem governos maiores?” Rodrik apresentou seus resultados, que foram confirmados por Alesina e Warcziarg (1998). A regressão na figura abaixo mostra a relação parcial, para 115 países, entre grau de abertura econômica e gastos do governo, controlando-se para renda per capita, urbanização, razão de dependência, área territorial do país e aspectos regionais).

Ele resume os resultados da seguinte forma:

Existe uma associação empírica forte e robusta entre a abertura ao comércio e o consumo do governo (como parcela do PIB) em uma grande amostra em corte transversal dos países. Além disso, a figura [abaixo] deixa claro que o resultado não é impulsionado pela presença de outliers: a amostra de 115 países abrange praticamente toda a gama de medidas de abertura e gastos do governo.

Rodrik_openness_Gov_fig_2

O que explica esta relação?

A tese de Rodrik é a de que a exposição ao comércio internacional impõe riscos econômicos à sociedade, na forma de possível perda de empregos e de renda, devido ao risco de concentração da pauta exportadora, que torna o país mais suscetível ao segundo risco, a saber: a possibilidade de oscilações bruscas ou queda sistemática dos termos de troca. Como resultado, a sociedade organiza uma estrutura robusta de Seguridade Social, como uma “rede de proteção”, caso tais riscos se realizem. Nas palavras do autor:

A explicação parece ser que o consumo do governo desempenha um papel de redução de risco em economias expostas a uma quantidade significativa de risco externo. Quando se interage o grau de abertura com medidas explícitas de risco externo, tais como a incerteza dos termos de troca e a concentração de produto das exportações, são os termos de interação que assumem maior significância e o termo de abertura perde seu significado (ou se torna negativo).

Em outras palavras:

As sociedades parecem exigir (e receber) uma função expandida do governo como o preço por aceitar doses maiores de risco externo. Em outras palavras, os gastos do governo parecem prover um seguro social em economias sujeitas a choques externos.

Assim, países menores e mais abertos comercialmente costumam ter governos maiores. Este é o caso dos países europeus. O que as pesquisas de Rodrik e co-autores mostram é que o modelo político ajuda a explicar estas relações.

Já Alesina e Warcziarg (1998) apontam para o tamanho territorial dos países (que se relaciona ao grau de heterogeneidade cultural) como a variável central para tal explicação.

Voltaremos no próximo post a discutir mais a fundo estas relações.

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