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O filme “The Circle” não é um bom filme mas mostra muito bem a realidade na qual vivemos hoje e a ingenuidade/desconhecimento das pessoas que defendem os interesses que são propagados por quem tem o poder mas que não se aplicam a estes.
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“The Circle” retratata a ascenção de Mae (interpretada por Emma Watson) numa empresa de software análoga ao Facebook, liderada por Bailey (Tom Hanks). Chegando à empresa ela acha as práticas um tanto estranhas mas logo e facilmente vai se adaptando ao modelo até se tornar umas das maiores defensoras e inovadoras do lema propagado por Bailey, ainda mais inovadora e agressiva que o próprio fundador da empresa pois acredita realmente nos lemas: conectividade total, transparência total e divulgação total são a melhor forma de atingir uma real democracia aberta para todos. O filme dá alguns belos exemplos dos argumentos a favor disto que, infelizmente, tenho visto nas mídias sociais.

Em 1983 o filósofo alemão Peter Sloterdijk escreveu provavelmente sua obra mais importante: “Kritik der zynischen Vernunft” (“Crítica da Razão Cínica“) em que ele argumentava que a idéia da “ideologia” proposta por Marx (“Sie wissen das nicht, aber sie tun es” – “Eles não o sabem mas o fazem”) estaria ultrapassada e que, nos dias atuais, as pessoas “sabem” exatamente o que fazem mas fazem mesmo assim: estaríamos numa “era do cinismo”.

Discussões diversas foram travadas e, principalmente em meio à mundialização, este foi um tema muito debatido, afinal, com a internet chegara o acesso à informações como iPhones ou roupas que usamos serem fabricadas por mão de obra escrava que abominamos e mesmo assim continuamos as comprando. Ou as alterações climáticas que nos levarão ao Apocalipse mas continuamos as mesmas práticas para este fim. E assim por diante.

Tornou-se claro como nossas práticas do dia-a-dia influenciam negativamente as nossas próprias vidas e continuamos a praticá-las. Por que? A teoria de Marx dizia que as pessoas não sabiam o quanto faziam mal a sí mesmas e a de Sloterdijk era que hoje elas sim sabiam, mas continuavam fazendo mesmo assim: cinismo.

Em 2008, após a crise financeira, as instituições financeiras responsáveis pela crise e defensoras de uma maior desregulação do mercado assim como um “Estado menor” foram resgatadas pelo Estado Norte-Americano. $700 Bilhões de Dólares, provenientes de impostos, foram tirados dos cofres públicos para resgatar o mercado financeiro que exigia menos impostos, menos Estado, menos intervenção (aqui).

Poucos dias atrás a China ameaçou comprar a Bolsa de Chicago e todos estes que normalmente eram defensores do “livre mercado” e do “Estado mínimo” foram correndo ao Estado pedir intervenção para que o livre mercado não fosse aplicado (aqui).

E mesmo outros “heróis” que temos são deliberadamente hipócritas e os aceitamos. Bono Vox, do grupo U2 é conhecido pela sua atuação pelos direitos humanos, exigindo que governos façam mais, gastem mais e se envolvam mais pelas pessoas, meio-ambiente e pelo povo. Ao mesmo tempo, ele e sua banda U2, que tanto defendem a Irlanda do Norte, se mudaram oficialmente para paraísos fiscais para não pagar impostos na Irlanda (aqui).

Hipocrisia é algo que conhecemos bem no mundo atual, cinismo também. Porém, será que sabemos bem o quanto somos usados por hipócritas e cínicos?

Hoje em dia, como Mae no “The Circle”, milhões de pessoas defendem a transparência total, a quebra dos direitos de privacidade pelo fim do “terrorismo” ou o “livre mercado” pelo direito ao empreendendorismo, até mais veemente que os próprios interessados.
E não, não acho que Marx teria hoje completa razão mas muito menos vejo que Sloterdijk se aplica completamente. O eixo mudou e, entre desconhecimento e cinismo, voltamos à manipulação e à ideologias que voltam a se tornar “religiões”, cegas como são à ciência, e à peões num jogo de xadrez que já tem o vencedor pré-estipulado.

No filme “The Circle”, existem apenas duas propostas interessantes (e, se você não quiser saber o fim do filme, não leia daqui para frente!):

  1. O título. Pois é genial em termos sociológicos, econômicos e psicológicos: andamos em círculos atualmente na visão do que fazer com as informações que temos a acabamos fazendo o mesmo que se não tivéssemos informação alguma; ou até pior.
  2. Mae, no final do filme, resolve exigir que os donos da empresa sigam as mesmas práticas que eles propagam e exigem e que tantos milhões aderem – o que não é possível, é claro, pois eles só podem estar acima e ganhar seus bilhões por não participarem da transparência, “socialismo”, “comunitarismo”, etc que propagam.

 

É um filme muito fraco mas bem realista: estamos dispostos a nos sacrificar pelas idéias que aqueles que não estão dispostos a nada nos vendem para poder, eles, estar acima de nós? É este o preço de um reconhecimento qualquer?

Nem desconhecedores nem cínicos, nem ignorantes nem cegos, será que voltamos a ser apenas meros peões num jogo prá-estipulado? Um filme simples mas com questões importantes.

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