Segundo o propagandista da República Aristides Lobo (1838-1896), “o povo, que pelo ideário republicano deveria ter sido protagonista dos acontecimentos, assistira a tudo bestializado, sem compreender o que se passava, julgando ver talvez uma parada militar”. Passados quase cento e trinta anos da Proclamação da República, muitos desafios se apresentam no Brasil.

Bem recentemente, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) revelou um quadro merecedor de reflexões e preocupações. Dos 13 milhões de desocupados, 63,7% são pretos ou pardos, apontou o IBGE. A pesquisa revela ainda que esse mesmo grupo ganha, em média, apenas 55,5% do rendimento dos brancos. Pretos e pardos são a maioria, 65,8%, entre os trabalhadores subutilizados, isto é, aqueles com jornadas de trabalho inferiores a 40 horas semanais, mas que gostariam de trabalhar mais.

Em matéria jornalística da Deutsche Welle, publicada no dia 17 de novembro, Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, afirmou que “há diversos fatores para essas desigualdades no mercado de trabalho, como falta de experiência, de escolarização e de formação, mas destacou que isso é também um resquício da escravidão”. Ele acrescentou ainda que esse quadro geral reflete “um processo histórico, que vem desde a época da colonização”. Do ponto de vista da violência cotidiana, sete em cada dez pessoas assassinadas no Brasil são negras. Pretos e pardos representam 54,9% da população.

Para o cientista político e historiador José Murilo de Carvalho, no livro “A formação das almas: o imaginário da República no Brasil” (Companhia das Letras, 1990), “o instrumento clássico de legitimação de regimes políticos no mundo moderno é, naturalmente, a ideologia, a justificação da organização do poder”. Ele acrescenta ainda que, como opção republicana, “a versão final do século XIX da postura liberal era o darwinismo social, absorvido no Brasil por intermédio de Spencer, o inspirador do principal teórico paulista da República, Alberto Sales”.

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No Brasil, pondera José Murilo de Carvalho, “o liberalismo adquiria um caráter de consagração da desigualdade, de sanção da lei do mais forte”. A República Velha (1889-1930), oligárquica e antissocial, não deixou saudades na população. Para reeditá-la, a partir de uma ponte para o passado, não há respaldo popular. Afinal, segundo a pesquisa Pulso Brasil, da Ipsos, 95% dizem que o país está no rumo errado.

 

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