A mais recente edição anual da pesquisa do “Latinobarómetro” traz informações preocupantes em termos de clima social na nossa região. Constata-se, no quadro geral, a degradação da confiança popular nas instituições e nas perspectivas. Nesse cenário, destaca-se negativamente o Brasil porque o sentimento popular mistura uma grande insatisfação com descrença. Buscarei apresentar alguns números dessa pesquisa e comentá-los brevemente.

Consta na pesquisa “Latinobarómetro 2017” que quando questionados sobre a satisfação com a democracia, a média das respostas latino-americanas é de 30%. No Brasil, por sua vez, essa satisfação é de apenas 13%. Quando questionados se os governos administram para o benefício próprio e de alguns poucos grupos poderosos, a média latino-americana das respostas é de 75%, enquanto no Brasil essa resposta atinge a espantosa marca de 97%.

Latinobarómetro 4 (2017)

Latinobarómetro 5 (2017)

Em relação aos conflitos entre empresários e trabalhadores, a pesquisa aponta que na América Latina a avaliação popular atinge 74%, ao passo que no Brasil a percepção desses conflitos atinge o patamar de 82%. Sobre a imagem do progresso, a média entre os latino-americanos é positiva para 25% e no Brasil essa avaliação é positiva para apenas 6%.

Latinobarómetro 8 (2017)

Latinobarómetro 9 (2017)

No clássico livro “Raízes do Brasil” (1936), Sérgio Buarque de Holanda levantou muitas questões históricas relevantes. Destaco a seguinte: “Como esperar transformações profundas em um país onde eram mantidos os fundamentos tradicionais da situação que se pretendia ultrapassar?” A busca pela reedição da República Velha (1889-1930), oligárquica e antissocial, elevará as tensões sociais e a instabilidade institucional entre nós e ainda prejudicará o desenvolvimento do mercado doméstico.

Segundo ponderou Sérgio Buarque, “a ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós” e, portanto, “a democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido”. Por certo que devemos nos recordar do alerta de Joaquim Nabuco (1849-1910) de que a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil, pois há correlação entre corrupção e desigualdades sociais. A desigualdade brasileira possui raízes históricas, econômicas e políticas. Desde a Proclamação da República (1889) se buscou “fugas para frente”, porém não conseguimos sair do subdesenvolvimento. Não devemos considerar razoável hoje uma fuga para um passado oligárquico e antissocial que não deixou saudades.

 

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