O título deste breve texto diz respeito ao importante filme dirigido por Ken Loach. A motivação para escrever vem do recente relatório divulgado pela Oxfam, “Recompensem o trabalho, não a riqueza”. De acordo com esse documento, “de toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% foi parar nas mãos do 1% mais rico do planeta. Enquanto isso, a metade mais pobre da população global – 3,7 bilhões de pessoas – não ficou com nada”. No Brasil, é bem similar esse quadro geral.

Oxfam 2018

Segundo a Oxfam, “o trabalho temporário e precário é a norma nos países em desenvolvimento e é uma realidade cada vez mais visível em nações ricas. Os empregados temporários recebem salários mais baixos e têm menos direitos e menor acesso à proteção social”. Nesse sentido, o filme “Eu, Daniel Blake” merece maiores reflexões no presente. Afinal, o 1% dos indivíduos mais ricos do mundo capturaram o crescimento econômico duas vezes mais que os 50% mais pobres desde 1980. Políticas neoliberais “reformistas” de Margaret Thatcher, Ronald Reagan e outros líderes políticos mostraram-se verdadeiras máquinas produtoras de desigualdades sociais e essas diretrizes políticas não foram efetivamente revertidas nos anos 1990 pelos adeptos da socialdemocracia revista (terceira via).

Conforme aponta o citado documento da Oxfam, “o 1% mais rico vem sonegando cerca de US$ 200 bilhões em impostos. Os países em desenvolvimento estão perdendo pelo menos US$ 170 bilhões por ano em impostos não pagos por empresas e super-ricos”. Vivemos em um mundo no qual a meritocracia não explica as desigualdades sociais extremas. Para a Oxfam, na maioria dos casos, elas são produtos de heranças, monopólios ou relações clientelistas com os governos.

 

“Eu, Daniel Blake”

Daniel Blake é um senhor com problemas cardíacos, um bom cidadão cumpridor de suas obrigações tributárias e que necessita ter acesso à seguridade social no Reino Unido, mais especificamente na Inglaterra. A burocracia cria grandes dificuldades e constrangimentos para Blake e ela me fez recordar da tese da filósofa Hannah Arendt sobre a banalização do mal.

Blake é carpinteiro de profissão e vive só, mas possui uma boa relação com seu vizinho e ele ainda acaba conhecendo uma jovem mãe solteira em dificuldades para sustentar seus dois filhos. Ela, assim como ele, precisa da seguridade social. A realidade mostrada no filme está muito próxima de nós, infelizmente. Após os trinta anos gloriosos do Estado de bem-estar social, um perverso Estado de mal-estar social ganhou terreno no mundo considerado desenvolvido.

Daniel Blake morreu de ataque cardíaco antes de ter acesso ao benefício que lhe era de direito na seguridade social. Entretanto, ele deixou uma carta emocionante que foi lida em seu funeral pela jovem mãe solteira que buscou ajudar em vida. Nessa carta, Blake mostrou a humanidade que estamos perdendo com o avanço do neoliberalismo e da indiferença social que lhe é peculiar. Vejam o filme e tirem suas próprias conclusões.