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No dia 4 de novembro de 2011 um grupo de estudantes se rebelou contra as aulas do renomado Professor de Economia de Harvard, N. Gregory Mankiw, autor do mais bem-sucedido manual de economia da história da profissão. Eles alegavam que Mankiw ensinava uma economia que não os ajudava a compreender o mundo real e, em particular, as causas da crise financeira que devastava a economia do país (ver mais aqui).

Esta não foi a primeira reação estudantil ao ensino formal em Economia. Já vem de muitos anos a reivindicação por mais pluralidade no ensino universitário na área da economia, sendo o movimento de economia pós-autista (PAECON), iniciado na França em junho de 2000 (ler mais aqui).

Recentemente, o professor Samuel Bowles do Santa Fe Institute, pouco conhecido por estas bandas, publicou um artigo de opinião no Financial Times (FT) sobre a necessidade de reforma na instrução universitária dos economistas. O artigo gerou algumas reações interessantes que ajudam a entender a natureza difusa das visões em economia.

Para o post não ficar muito extenso, não vou analisar; apenas apresentarei a tradução dos textos para apreciação dos leitores interessados na controvérsia.

Advertência: é preciso levar em conta que o contexto do debate é o hemisfério norte. Aqui as coisas são um pouco diferentes. Deixamos isto para outra ocasião. Vamos aos textos!

 

Como consertar os cursos universitários de economia

Um currículo que não integre as contribuições de outras ciências deixa os estudantes na mão

SAMUEL BOWLES

Financial Times, 16 de Janeiro de 2018

Os economistas estão sob ataque por falta de “pluralismo” em seus currículos de graduação. Uma atenção insuficiente, dizem os críticos, é dada a escolas de pensamento contrastantes – Keynes versus os monetaristas, Marx contra os neoclássicos – e as lições da história e das outras ciências sociais.

Os críticos estão certos. A instrução de economia de graduação tende a ser estreita em ambos os aspectos, e nossos alunos são os mais prejudicados. No entanto, surgem problemas quando se trata de remédios: os críticos têm uma concepção limitada do pluralismo e uma tendência a ignorar desenvolvimentos recentes na disciplina.

Devemos distinguir entre duas variantes do pluralismo. A primeira delas é o pluralismo por justaposição, em que diferentes abordagens são contrastadas e os alunos são orientados a ver o estudo da economia como um tipo de torneio de paradigmas. Mas pode-se apresentar o pluralismo, alternativamente, organizando-se os insights de diferentes escolas de pensamento e outras disciplinas acadêmicas em um paradigma comum. Chame esse pluralismo pela integração.

A falta de pluralismo de qualquer tipo pode ser atribuída ao modelo de referência usado na maioria dos estudos econômicos. Se o caso de paradigma é um “homo economicus” egoísta, comprando e vendendo em mercados perfeitamente competitivos em que a oferta sempre é igual à demanda, então fica difícil incorporar a contribuição das idéias de outras disciplinas acadêmicas ou escolas de pensamento. Mas esta referência foi superada há muito tempo no conhecimento teórico aplicado em pesquisas e na formulação de políticas públicas.

Ao longo dos últimos cinco anos, alunos, professores e pesquisadores colaboraram no projeto Core, desenvolvendo uma introdução à economia usando um benchmark mais atual que incorpora o pluralismo pela integração.

Para ver por que uma nova referência é importante, considere como o Core trata a empresa e o mercado de trabalho. Adota-se de partida a premissa de empregador e empregado têm interesses conflitantes sobre o esforço gasto no trabalho. A idéia de que o contrato de trabalho não pode garantir que um funcionário trabalhe duro ou bem é um elemento básico da microeconomia moderna de contratos incompletos. Mas a ideia vem direto de Karl Marx. Os estudantes descobrem que a causa de o contrato ser incompleto reside no fato de que a informação é local e escassa. Esta visão é a essência do pensamento de Friedrich Hayek.

Os alunos do Core então aprendem com o economista Ronald Coase, da Universidade de Chicago, que “a marca distintiva da empresa é a supressão do mecanismo de preços”. Os salários e a quantidade de trabalho realizado são determinados pelo poder exercido pelo empregador e pela ética de trabalho dos funcionários – não apenas pela concorrência no mercado. Sociologia, psicologia, ciência política e direito são partes integrantes da compreensão de como esse modelo funciona. Os alunos aprendem que Herbert Simon, formado em ciência política, forneceu um modelo matemático desse processo há mais de meio século.

Um resultado dessa abordagem, também comum na economia moderna, é que, no mercado de trabalho, a demanda geralmente ficará aquém da oferta e o desemprego resultante deve-se à natureza incompleta do contrato de trabalho. Integrando Coase, Hayek, Marx e Simon, bem como pesquisa recente, fornece um modelo que os alunos podem usar para analisar a economia dos “bicos” (no sentido de trabalho temporáriogig economy), os efeitos dos salários mínimos ou o desempenho econômico das nações com diferentes instituições do mercado de trabalho.

Agora imagine, em vez disso, que o mercado de trabalho e a empresa foram representados como estão no modelo padrão de benchmark de livros didáticos. Lá, a empresa deve comprar o trabalho do empregado em uma transação que não difere muito da compra de quilowatts de eletricidade. Não há desemprego e não há conflitos de interesse sobre o trabalho, nenhum ponto a respeito do exercício do poder exercido pelo empregador sobre o trabalhador, bem como as normas sociais não desempenham nenhum papel.

Neste mundo imaginário, Coase, Hayek, Marx e Simon, e outras disciplinas, são irrelevantes. O pluralismo da Core, ao contrário, mostra aos alunos que informações úteis podem vir de muitas fontes e fornece ferramentas que lhes permitem abordar os problemas econômicos urgentes de hoje.

Samuel Bowles escritor é professor de pesquisa no Instituto Santa Fe. Wendy Carlin do University College London também contribuiu.

Fonte: Financial Times. Opinion Education: “How to fix university economics courses”. (Link)


O artigo de Bowles gerou duas reações até o momento nas páginas do FT. A primeira foi de Martin Weale, em 17 de janeiro de 2018, em que o autor discorda frontalmente de Bowles, alegando que o ensino atual de graduação já considera as limitações dos modelos. Eis a carta que Weale enviou ao Editor do FT.

Senhor Editor, os cursos universitários em economia precisam mesmo de muito conserto (Comment, 17 de janeiro)?

Tendo retornado ao ensino universitário convencional após um intervalo de mais de 20 anos, ainda penso que é importante comunicar que não existe tal coisa como a verdade teórica e que os modelos econômicos são, por sua natureza, simplificações. Mas não preciso ensinar a economia marxista para fazer isso. Parece-me que, com o escasso tempo de ensino, a prioridade é fazer com que os alunos apliquem o que aprendem ao que vêem à sua volta.

Meus alunos recentemente fizeram um exame com a pergunta: “Por favor, explique a decisão tomada pelo Comitê de Política Monetária em novembro de 2017. Você concorda com esta decisão?”.

O ensino e a leitura relevantes os fazem entender as limitações de relações como a curva de Phillips [tópico recentemente discutido aqui no blog]. E eles também precisam expressar seus próprios pontos de vista.

Será que estou sozinho ao pensar que esse tipo de material é mais valioso e interessante do que uma compreensão completa das teorias de subconsumo, da mais-valia e do problema de transformação?

 Meus alunos parecem mais preocupados com o fato de que o material necessário para responder a perguntas como essa ainda não apareceu em um livro-texto padrão do que na falta de pluralismo no ensino.

Martin Weale é Professor de Economia, King’s College London, WC2, Reino Unido. (link do original)


Em seguida à resposta de Weale, a carta ao editor do FT mais lida da segunda-feira dia 22 de janeiro de 2018, foi de a de Yeomin Yoon, traduzida abaixo, em que o professor de finanças alega que a grande falha na economia é ignorer a moralidade do agente econômico adotado em seus modelos.

Senhor Editor, nem Samuel Bowles (“Como corrigir cursos universitários de economia “, 17 de janeiro) nem Martin Weale (cartas, 18 de janeiro) abordam a falha fundamental na teoria econômica que está sendo ensinada nas universidades, a saber: o desaparecimento da moral da economia, a qual era originalmente um ramo de filosofia moral.

O paradigma prevalecente adotado pela economia dominante é o homo economicus, que é a “redução errada de um homem”, de acordo com Amitai Etzioni (ver The Moral Dimension: Toward a New Economics). Essa redução grosseira do ser humano a um agente racional que maximiza sua utilidade sujeita à restrição orçamentária dada levou aos becos da matematização da economia, processo este servilmente implementado por economistas que sofrem de um complexo de inferioridade chamado “inveja da física” (physics envy). Conforme descrito adequadamente por Tomas Sedlacek em sua Economia do Bem e do Mal (Economics of Good and Evil) a teoria econômica prevalecente hoje é “no máximo, hedonista”.

É triste ver que a economia dominante rejeita qualquer relevância à ética devido a uma interpretação equivoca de Adam Smith.

Os economistas devem prestar atenção a John Maynard Keynes, o qual criticou a abordagem apoiada na física tão típica da economia (neoclássica) e pediu um retorno à percepção original da economia como uma ciência moral.

Yeomin Yoon é Professor de Finanças e Negócios Internacionais, Seton Hall University, NJ, EUA. (link do original)


Ao que tudo indica o debate tende a se prolongar. E você, estudante de economia ou leitor(a) interessado(a) no tema, o que acha?