Lançado em janeiro, o documento “Recompensem o trabalho, não a riqueza”, da Oxfam, merece maior reflexão entre nós. De acordo com esse documento, “de toda a riqueza gerada no mundo em 2017, 82% foi parar nas mãos do 1% mais rico do planeta. Enquanto isso, a metade mais pobre da população global – 3,7 bilhões de pessoas – não ficou com nada”. Retorno ao documento da Oxfam porque o momento político e institucional brasileiro é de extrema gravidade, algo que provoca efeitos nos campos sociais e econômicos.

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Segundo a Oxfam, “o trabalho temporário e precário é a norma nos países em desenvolvimento e é uma realidade cada vez mais visível em nações ricas. Os empregados temporários recebem salários mais baixos e têm menos direitos e menor acesso à proteção social”. O 1% dos indivíduos mais ricos do mundo capturou o crescimento econômico duas vezes mais que os 50% mais pobres desde 1980. Políticas neoliberais “reformistas” de Margaret Thatcher, Ronald Reagan e outros líderes políticos revelaram-se máquinas reprodutoras de desigualdades sociais extremas e essas diretrizes não foram revertidas após o crash de 2008.

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Conforme informa a Oxfam, “o 1% mais rico vem sonegando cerca de US$ 200 bilhões em impostos. Os países em desenvolvimento estão perdendo pelo menos US$ 170 bilhões por ano em impostos não pagos por empresas e super-ricos”. Vivemos em um mundo no qual a meritocracia não explica as desigualdades sociais extremas. Para a Oxfam, na maioria dos casos, elas são os produtos de heranças, monopólios ou relações clientelistas com os governos.

Os custos da corrupção superam os 5% do produto global e chegam a mais de 2,6 trilhões de dólares por ano. No Brasil, por sua vez, estima-se uma perda de cerca de R$ 200 bilhões com esquemas de corrupção por ano. De acordo com a pesquisa Oxfam Brasil-Datafolha, divulgada em dezembro, 81% dos brasileiros acreditam que a corrupção contribui muito para as desigualdades sociais em nosso país. Para 71%, os “muito ricos” (0,1% da população com ganhos a partir de 80 salários mínimos mensais) devem pagar mais tributos para financiar educação, saúde e moradia. O Brasil é considerado o país mais desigual quando o critério é a concentração de renda no 1% do topo, segundo aponta a pesquisa “World Inequality Report 2018”.

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A grave crise brasileira é multidimensional e, portanto, complexa. Deveríamos estar bem preocupados com as perdas de perspectivas da classe média e os seus efeitos sobre o processo democrático. Nesse sentido, o discurso fácil da escassez de recursos financeiros deve ser problematizado à luz dos problemas e das opções regressivas que os governantes têm feito ao longo dos anos. Afinal, as pesquisas de opinião que estão sendo publicadas na imprensa mostram como a nossa população está insatisfeita com as perspectivas da construção de um Estado de mal-estar social.

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