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Questionei, em outra ocasião, o argumento de que o desemprego não era relevante para explicar a queda da taxa de inflação (ver aqui). Thais Carrança informou no Valor (em 05/02/18)  que, segundo dados recentes, a informalidade se comportou de maneira oposta nos dois extremos da pirâmide social durante a recessão (versão aberta aqui).

A taxa de informalidade da economia chegou a 44,5% em setembro de 2017, avanço de 3,5 pontos percentuais em relação ao segundo trimestre de 2014 – considerado o início da recessão. Ocupações como motorista de aplicativos, ambulante de alimentos e doméstica ganharam espaço no mercado laboral. Antes da crise, a taxa de informalidade havia diminuído dois pontos percentuais desde o início da série.

As classes D e E (rendimento até 4 salários mínimos) foram as que mais perceberam aumento na taxa de informalidade no emprego, conforme o gráfico abaixo.

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Na classe E, pessoas que ganham até dois salários mínimos e representavam em setembro 67% da população ocupada, a taxa de informalidade também vinha caindo antes da recessão, mas desde o segundo trimestre de 2014 até setembro de 2017, avançou 4,4 pontos percentuais, a 52,8%, velocidade maior do que para a população em geral.

Em 2017, foram criados 1,8 milhão de postos de trabalho. Desse total, mais de 1 milhão de pessoas passaram a trabalhar por conta própria e outras 598 mil, sem carteira assinada. No mesmo período, 685 mil pessoas perderam o emprego com carteira. O emprego informal está crescendo mais do que outras formas de ocupação e se concentra em ocupações de baixo rendimento.

É difícil uma economia restaurar as mesmas vagas de emprego destruídas pela recessão. Como organismo vivente e evolutivo, uma vez alterada, ela jamais retorna à sua configuração anterior.

Por isso, o fato de uma pessoa estar “ocupada” em alguma atividade não significa que ela está fazendo o que sabe (ou foi treinada para) fazer melhor. O efeitos de longo prazo do desemprego já foram analisados pela teoria econômica. Vejamos isso com mais detalhe.

Subdesenvolvimento e Desemprego Disfarçado

Ao refletir sobre os dilemas do desenvolvimento econômico, a economista britânica Joan Robinson cunhou o conceito de desemprego disfarçado. Disse ela:

Em um estado relativamente estagnado da sociedade, devemos esperar que o subemprego seja a regra. No entanto, o desemprego, como o conhecemos, é especificamente a doença de uma comunidade industrial avançada. […] um homem que é perde seu trabalho deve se arrumar de uma forma ou outra por meio de seus próprios esforços. (…) Assim, exceto em condições peculiares, um declínio na demanda efetiva que reduz a quantidade de emprego oferecida no setor geral das indústrias não conduzirá ao “desemprego” no sentido de ociosidade completa, mas preferirá dirigir os trabalhadores para uma série de ocupações – vendendo caixas de fósforos (…), cortando mato nas selvas, plantando batatas em lotes – que ainda estão abertos para eles. Um declínio em um tipo de emprego leva a um aumento de outro tipo, e à primeira vista pode parecer que, nesse caso, um declínio na demanda efetiva não causa desemprego.

O efeito se dá sobre a produtividade do trabalhador:

Em todas as ocupações que os trabalhadores demitidos ocupam, sua produtividade é menor do que nas ocupações que deixaram. Pois, se não fosse assim, eles já teriam se envolvido nelas. O salário recebido por um homem que permanece no emprego em uma determinada indústria mede a produtividade física marginal de um homem semelhante que foi demitido dele e, se este pudesse encontrar uma profissão que lhe rendeu um retorno melhor, ele não teria esperado demissão para procurar esta outra vaga.

Assim, partindo de uma política monetária contracionista, por exemplo, com o objetivo de controlar a inflação, o resultado é que:

… um declínio na demanda pelo produto da indústria geral leva a um desvio de trabalho de ocupações em que a produtividade é maior para outros onde é menor. A causa desse desvio, o declínio da demanda efetiva, é exatamente o mesmo que a causa do desemprego no sentido comum, e é natural descrever a adoção de ocupações inferiores por trabalhadores despedidos como desemprego disfarçado. (Robinson 1936, p. 226)

Como já disse em outra ocasião (aqui) , o custo social de ancorar as expectativas de inflação – com um rigor excessivo até para o mercado financeiro – não se manifesta apenas na destruição de vagas de trabalho. Fosse assim, a retomada recente dos empregos teria apagado parte do problema.

Infelizmente, há efeitos negativos duradouros, de ordem qualitativa, que o “desemprego disfarçado” gera em termos de capacitação e qualificação da mão de obra. Ou seja, mesmo se o número de vagas retornar ao valor pré-crise, dificilmente serão as mesmas vagas destruídas.

Se Joan Robinson estiver correta, a perda de produtividade resultante pode reduzir a taxa máxima que a economia pode crescer sem gerar pressões inflacionárias (a chamada NAIRU). Mais que isso, pode aprofundar a desigualdade de renda e de riqueza que já assola nossa sociedade, esta a marca mais saliente do nosso subdesenvolvimento.

 

 

Referência Citada

Robinson, Joan (1936) “Disguised unemployment” The Economic Journal, Vol. 46, No. 182 (June), p. 225-237.