Em artigo publicado no “Blog do Ibre”, da Fundação Getúlio Vargas, no dia 29 de janeiro, Fernando Veloso traz uma discussão relevante. Para o economista, “enquanto o debate sobre crescimento no Brasil não vai muito além de aspectos relacionados à retomada cíclica da economia, na Europa e nos Estados Unidos o grande tema é o efeito das novas tecnologias de automação e inteligência artificial sobre a produtividade e o emprego”.

Veloso recorreu inicialmente ao “paradoxo da produtividade”, de Robert Solow. De acordo com o respectivo paradoxo, de 1987, computadores estavam presentes em todos os lugares, menos nas estatísticas de produtividade. Ainda que o crescimento da produtividade tenha ocorrido na década de 1990 nos EUA, o seu período de alta acabou sendo relativamente curto.

Segundo apontou Veloso, entre “2005 e 2016, a produtividade do trabalho nos Estados Unidos cresceu a uma taxa média anual de 1,3%, menos da metade do crescimento anual de 2,8% entre 1995 e 2004”. Algo similar ocorreu nas economias avançadas. Na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o crescimento anual da produtividade, que foi em média de 2,3% no período 1995-2004, caiu para 1,1% entre 2005 e 2016. Essa desaceleração não reflete apenas os efeitos do crash de 2008, pois ela iniciou antes.

Veloso apresentou hipóteses explicativas: 1) novas tecnologias talvez sejam menos promissoras do que parecem; 2) ganhos de produtividades decorrentes da adoção das novas tecnologias não estão sendo capturados nas estatísticas por conta de erros de mensuração; 3) efeitos positivos das novas tecnologias estão sendo capturados por poucas empresas e, portanto, eles têm pouco impacto na produtividade agregada. O autor destacou ainda uma quarta hipótese, segundo a qual há uma defasagem temporal no efeito de uma nova tecnologia na produtividade.

Conforme resumiu Veloso, “o impacto das novas tecnologias sobre a produtividade tem sido surpreendentemente modesto, e minha avaliação é de que o debate em torno do paradoxo da produtividade continua em aberto”. O autor destacou também a perspectiva de “uma forte polarização do mercado de trabalho, com trabalhadores mais qualificados se beneficiando das novas tecnologias, e trabalhadores de menor qualificação que exercem atividades rotineiras tendo queda dos salários e perda do emprego”. Essa discussão é bem relevante para o Brasil por conta dos crescimentos da informalidade e das insatisfações populares.