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Um dos episódios mais comentados da história financeira mundial é a bolha financeira das tulipas, flor endêmica do norte da Europa. A narrativa original conta que, entre novembro de 1636 e meados de 1637, os preços das tulipas se multiplicou várias vezes com base na irracionalidade dos agentes econômicos, presos num circuito fechado de comprar tulipas para vendê-las em seguida, na expectativa de que o preço continuaria subindo.

Precos_Tulipas

 

Bode expiatório das bolhas

Periodicamente, algum guru das finanças adverte quanto à mais recente bolha financeira. Frequentemente, a ilustração didática lança mão do episódio da febre das tulipas no século XVII. A mais recente é a “bolha” da bitcoin, que veio acompanhada de referências às “tulipomania”.

 

 

Mas, bitcoin à parte, será que foi o episódio das tulipas foi mesmo uma “mania”, uma “febre”, uma explosão de comportamento irracional?

Febre ou comportamento racional?

Alguns trabalhos vêm questionando esta tese desde 1989, com o artigo de Peter Garber para o Journal of Political Economy. Além deste,  Earl Thompson alegou, na revista Public Choice, em 2007, que a febre das tulipas não passou de um “artefato” criado pelo governo holandês, na forma de uma conversão, em novembro de 1636, dos contratos futuros de tulipa em opções de compra (explicarei esta tese em outra ocasião).

Ainda mais recentemente, Anne Goldgar ofereceu uma abordagem histórica deste episódio mais densa em pesquisa de arquivo. Em seu novo livro, Tulipmania: Money, Honor and Knowledge in the Dutch Golden Age, a autora questiona a ideia de uma “febre” ou “mania” das tulipas. Trago abaixo um excerto de um texto escrito por ela para o site The Conversation (também mencionado por Tyler Cowen hoje em seu blog Marginal Revolution) :

A mania das tulipas não foi irracional. As tulipas eram um produto de luxo novo em um país que expandia rapidamente suas redes comerciais e de riqueza. Muito mais pessoas podiam adquirir bens de luxos – e as tulipas eram vistas como lindas, exóticas e representativas do bom gosto e aprendizado exibidos por membros bem-educados da classe mercante. Muitos dos que compraram tulipas também compraram pinturas ou raridades coletadas como conchas.

Os preços aumentaram, porque as tulipas eram difíceis de cultivar de uma maneira que revelasse as populares pétalas listradas ou salpicadas, e ainda assim continuavam raras. Mas não era irracional pagar um preço elevado por algo que geralmente era considerado valioso, e para o qual a próxima pessoa poderia pagar ainda mais.

A mania das tulipas também não era uma febre. Na verdade, durante a maior parte do período, as negociações foram relativamente calmas, ocorrendo em tabernas e bairros em vez de na bolsa de valores. Também se tornaram cada vez mais organizadas, com as empresas criadas em várias cidades para cultivar, comprar e vender, e foram criados comitês de especialistas para supervisionar o comércio. Longe de bulbos sendo negociados centenas de vezes, nunca encontrei uma sequência de mais de cinco compradores, e a maioria foi muito mais curta.

A controvérsia em torno deste episódio é bastante interessante pois revela como os detalhes institucionais e socioeconômicos vão se perdendo, conforme o tempo avança, em favor de mecanismos mais objetivos e até mecânicos na busca de regularidades que nos permitam compreender o presente à luz do passado.

Todavia, a tese de não ter sido causado por irracionalidade não refuta sozinha a alegação de ocorrência de uma bolha financeira em 1636. O que este revisionismo faz é mostrar uma anatomia mais elaborada dos períodos de comportamento cumulativo nos mercados financeiros, como vimos no caso recente do VIX.

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