Sob o título “A história do pensamento econômico como teoria e retórica”, Pérsio Arida publicou um importante texto em 1983. Nesse instigante artigo, Arida argumentou que existem, basicamente, dois modelos estilizados de pensamento econômico: hard e soft science.

Hard e soft science são tipos ideais de modelos que visam traços da realidade, objetivando iluminar certos aspectos de interesse. De acordo com a síntese de Arida, “contra o modelo hard science, afirmamos que a noção de uma fronteira do conhecimento falsifica a história do pensamento como história das ideias. Contra o modelo soft science, afirmamos que a fusão entre história e teoria é necessariamente imperfeita, acarretando distorções graves tanto a uma quanto a outra”. Ao contrário das ciências ditas exatas, na ciência econômica, uma ciência social situada historicamente e geograficamente, premissas e variáveis a serem consideradas mudam ao longo do tempo.

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A taxa de obsolescência intelectual do modelo hard science é bem elevada, ao passo que no modelo soft science o apelo ao passado pode se mostrar ilusório por conta da dificuldade de se reconciliar, no presente, teoria com teste empírico. O passado não está morto, podendo até ser incerto em alguns aspectos e ainda tratar-se de algo muito “vivo” enquanto continuar sendo estudado por diferentes perspectivas metodológicas.

Mais adiante no seu artigo, Arida defendeu que “o bom desenvolvimento da teoria econômica deve ser feito simultaneamente nas duas frentes”. Afinal, por estar efetivamente imersa em um determinado contexto histórico, a teoria é situada e está sujeita a premissas e considerações específicas. Regras de validação de teorias aceitas por todos não existem. Segundo ponderou Arida, “na história do pensamento econômico as controvérsias são resolvidas não porque uma das teses foi falsificada, mas sim porque a outra comandou maior poder de convencimento”.

A retórica tem a sua funcionalidade no jogo político do debate econômico, principalmente quando se tenta impor uma agenda conservadora através de uma blitzkrieg. Discussões plurais e democráticas no contexto de persistência da grave crise econômica global, que estourou efetivamente no campo das finanças em setembro de 2008, apontam que esse é o caso. Esse debate está aberto porque não é possível blindá-lo integralmente de alguma visibilidade em relação às preferências sociais, aos interesses de grupos e a vieses ideológicos.