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Por Ramón Garcia-Fernandez

Fiquei muito triste com a perda do Paul Singer, ou Paulo, como ele preferia ser brasileiramente chamado. Uma figura importantíssima, ótimo economista, excelente pessoa, grande professor.

Morreu quando meus inimigos estão no poder, mas não foi uma overdose, foi uma doença depois de uma vida longa e extraordinariamente produtiva em diversas esferas: intelectual, política, organizacional. Lembrem que com mais de 80 anos, quando a enorme maioria dos que consegue chegar nessa idade já pendurou as chuteiras, ele continuava ocupando cargos importantes na alta administração do país.

Paul Singer fala em evento da Secretaria Nacional de Economia Solidária

PAUL SINGER FALA EM EVENTO DA SECRETARIA NACIONAL DE ECONOMIA SOLIDÁRIA
Fonte: Nexo Jornal 

A última vez que falei dele foi numa conversa há pouco mais de dois meses. Estava especulando com meu orientando de doutorado Henrique Pavan sobre a formação da banca da tese dele, que estuda moedas sociais, e ele lembro o nome do Singer. Como ainda faltam uns meses para a defesa, dissemos que veríamos se ele ainda estaria na ativa, e se estaria interessado em participar. Foi-se antes, infelizmente.

A primeira vez que soube de seu nome foi quando ainda estava na Argentina. A editora Siglo XXI lançou em espanhol seu “Curso de Introdução à Economia Política”. Na época eu nem fazia economia, mas sabia que todos os livros da Siglo XXI eram bons e de esquerda. Gravei o nome, como era (continua sendo) minha mania, pensando que seria algum autor inglês ou estadunidense que valeria a pena seguir.

Já no Brasil, e começando a ler revistas de esquerda (claro), ouvindo falar do Cebrap, etc, qual não seria minha surpresa ao descobrir que o tal Singer era brasileiro (só alguns anos mais tarde soube que ele tinha nascido na Áustria e vindo ao Brasil de criança). Ainda assim, acho que passei os quatro anos de FEA sem ouvir falar dele na escola, embora fosse uma referência em artigos de jornal, livros, etc., como o grande economista alternativo.

Quando entrei na pós, e vi que ele dava matérias no IPE, decidi que não podia perder a oportunidade de estudar com ele. E foi assim que fiz o curso de “Tópicos de Distribuição de Renda”. O curso foi muito legal, mas com alguns problemas decorrentes do bom coração do Paulo. Em primeiro lugar, ele deixou claro que era um curso no qual ele também estava estudando, e inclui na bibliografia autores clássicos e contemporâneos que ele queria ler ou reler; me convenceu na prática que cursos desse tipo são completamente válidos. Por outro lado, ele, bem no estilo dos 80s, organizou o curso em seminários, onde os alunos expunham e ele complementava. Nesse sentido, para os que éramos fãs de carteirinha dele, o curso foi menos interessante do que esperávamos: nós queríamos ouvi-lo, não ouvir nossos colegas e nós mesmos! Eu peguei o último seminário, e tive que preparar com muito cuidado boa parte do livro, então bastante recente, do James O’Connor sobre os EUA (na edição da Paz e Terra: “USA – Crise do estado Capitalista”); foi uma das melhores leituras que fiz na pós, e nunca o teria descoberto não fosse o Paulo.

Nessa mesma época houve um caso que hoje está esquecido, e que mostra claramente a competência intelectual do Singer. No ano de 1983, o Departamento de Economia da FEA contava só com cinco professores titulares, e os concursos estavam congelados fazia anos. Uma longa fila de candidatos estava esperando para prestar concursos para ingressar naquela faculdade. Com a mudança do governo (saiu Maluf, entrou Montoro) apareceram os concursos: quatro para titular em Microeconomia, três para titular em Econometria, quatro em Macroeconomia. A voz dos corredores dizia que esse era exatamente o número de professores que estavam em condições de virarem titulares. Só que ninguém conversou com o Paulo, um outsider no departamento na época.

Então ele resolveu se inscrever no concurso para Macroeconomia, e portanto, enquanto quase ninguém assistiu aos concursos de econometria e microeconomia, nos quais o resultado era um pênalti sem goleiro, o de macro tinha salas lotadas: quais seriam os aprovados? Não vou dar os nomes, mas os outros quatro professores eram membros respeitados e competentes do departamento, mas o Paulo brilhou nas provas. Lembro que quando da leitura das notas, houve dois professores que tiraram dez em tudo, e o Paulo foi um deles, com uma banca que não seria em princípio tão simpática a ele.

Em todos esses anos o Singer era a referência do macroeconomista de esquerda, especialmente do PT, do qual ele foi fundador. Envolvia-se em debates nos jornais, e sempre tinha uma presença importante em qualquer discussão de economia marxista. Culminou com brilho esse processo ao virar secretário no governo da Luiza Erundina em SP.

A obra dele nesse momento era best-seller. Lembro que uma vez me puseram na banca de uma monografia por parecer; comecei a ler, e estava achando o texto muito bom. Claro, como em qualquer trabalho fiz algumas críticas, sugeri mudanças, etc. A certa altura, o texto começou a resultar excessivamente familiar. Numa época sem internet, verificar plágio era f***, mas fui atrás e vi que o aluno tinha plagiado páginas e páginas de “O dia da lagarta”, um livro dele que tinha saído poucos anos antes; fiquei p*** da vida com o plágio, mas me diverti pensando que se eu soubesse que o texto era do Singer, nunca teria proposto qualquer mudança!

Depois que saí da FEA, eu o vi poucas vezes, em geral em situações sociais, na casa do André e da Sílvia. Acompanhei meio de longe sua transformação no grande nome da Economia Solidária, uma área na qual sempre tive interesse teórico, mas com a qual nunca me envolvi. Uma única vez o chamei para uma banca de uma orientanda minha, Denise Maia, também minha colega na UFPR, sobre esse assunto. Infelizmente, coincidiu com os dias em que meu irmão Javier piorou do câncer que tinha, e que acabou provocando seu falecimento. Como não dava para desmarcar a banca, e eu fui substituído na defesa pelo coordenador do curso; por isso, estive mas não estive numa banca com ele.

Um breve comentário teórico: sempre pensei que havia uma possibilidade enorme de diálogo entre os trabalhos dele e os do pessoal da Rethinking Marxism, especialmente do Rick Wolff e do Steve Resnick (1938-2013), ambos da University of Massachusetts Amherst. Até cheguei a comentar isso com ele em algum desses encontros circunstanciais, ele achou interessante, mas não me consta que tenha conseguido fazer qualquer coisa nesse sentido.

Para encerrar, uma das lembranças que acho mais importantes. Paulo Singer era presidente de honra da SEP [Sociedade de Economia Política]. Embora ele não tenha se envolvido muito com a associação, sempre foi nossa referência. E ele participou no primeiro congresso, no qual a SEP foi fundada, em Niteroi em 1996. Lembro que naquela assembleia onde poucos passavam dos 50, ele, com seus 64, era o sênior, pela obra e pela idade. A proposta de nomeá-lo presidente de honra teve aceitação unânime.

Hoje a SEP está consolidada, muitos dos presentes nessa assembleia estamos, anos mais ou anos menos, na idade que ele então tinha, e nosso presidente de honra nos deixou. Triste, claro, mas ele deixa uma lembrança inesquecível e uma obra que será referência permanente do pensamento progressista no Brasil e no mundo.

 

Ramon Garcia-Fernandez é professor titular no Centro de Engenharia e Ciências Sociais (CECS) da Universidade Federal do ABC (UFABC). Pesquisa e leciona cursos principalmente nos seguintes temas: metodologia da economia (especialmente na abordagem da retorica da economia); microeconomia heterodoxa ou alternativa (da perspectiva do institucionalismo original, e com influência da economia comportamental) e história econômica.