Em 1900, o grande liberal Joaquim Nabuco acertou ao afirmar que “a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. O trabalho escravo ainda é uma triste, perversa e anacrônica realidade encontrada entre nós, apesar de ser ilegal e imoral. Anteriormente, ao longo da campanha abolicionista, Nabuco questionou como a escravidão poderia não humilhar o brasileiro, quando ela ofendia o estrangeiro.

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Infelizmente, as novas formas de “servidão”, como a precarização das relações de trabalho, por exemplo, cristalizam uma perversa herança das desigualdades sociais brasileiras e conspirariam contra a confiança nas instituições. Uma interessante matéria publicada na revista britânica The Economist, em sua edição de 23 de abril de 2016, afirmou que “não há atalhos para resolver os problemas. As raízes da disfunção política do Brasil podem ser enxergadas na economia baseada no trabalho escravo do século XIX, na ditadura ocorrida no século XX e em um sistema eleitoral viciado em campanhas ruinosamente caras e que protegem os políticos da prestação de contas”.

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O Brasil já viveu um tempo no qual a sua inserção econômica global foi primário-exportadora e os governos estiveram bem livres de vinculações orçamentárias e muitas despesas obrigatórias. A Primeira República (1889-1930), oligárquica e antissocial, não lidou bem com as contas públicas brasileiras e isso ficou muito claro nos desdobramentos da crise de 1929: concentração de riquezas e socialização de prejuízos. A década de 1930, na onda da Grande Depressão, não foi marcada pelos avanços do liberalismo econômico e da paz mundial.

Vivemos hoje em um país urbano, ainda muito desigual, porém é relevante buscar aprender algo com o passado para evitarmos reproduzir, guardadas as devidas proporções, os dramas já experimentados. O modelo brasileiro de transição democrática converge, em certos aspectos, para a experiência espanhola do Pacto de Moncloa (1977). Em certa medida, grupos poderosos e bem articulados seguiram com astúcia o personagem aristocrata Tancredi Falconieri, do clássico livro de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1956): “A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. Infelizmente, os aspectos histórico-estruturais do subdesenvolvimento não foram vencidos por nós. A retomada do debate sobre desenvolvimento é necessária.