Tive a oportunidade de ler, nos últimos dias, um instigante artigo de Contardo Calligaris  sobre o que teria dado certo na revolução de maio de 1968 (“Folha de S. Paulo”, 17/05). Em suas recordações sobre aquele episódio na França, o psicanalista apontou o diagnóstico de que existem “normas implícitas, silenciosas, que sequer aparentam regrar nada e que seguimos porque seus mandamentos seriam ‘razoáveis’ ou ‘naturais’. Não adianta mudar o sistema político ou a organização do trabalho sem revelar e combater as formas ocultas de domínio sobre as vidas concretas”.

Após ler o artigo de Calligaris, recordei-me de um tema muito pouco discutido nas organizações humanas contemporâneas e que é abordado no livro “Mal-estar no trabalho”, editado pela Bertrand Brasil. O assédio moral, segundo a autora Marie-France Hirigoyen, psiquiatra e psicanalista, “é definido como qualquer conduta abusiva (gesto, palavra, comportamento, atitude) que atente, por sua repetição ou sistematização, contra a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho”.

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Uma consulta ao “Google” é capaz de trazer resultados interessantes. De pesquisas publicadas em formato de artigos acadêmicos e de outros tipos, destaco a relação entre o assédio moral e o adoecimento de trabalhadores, inclusive nas instituições de ensino (síndrome de burnout, por exemplo). Esse perverso fenômeno também se manifesta no Brasil e existem entre nós resultados disponíveis sobre estudos e pesquisas para a consulta. O assédio moral acontece em diversos setores de atividades humanas.

De acordo com Hirigoyen, “não são apenas os meios [contextos profissionais] nos quais prevalecem um intenso nível de estresse e má organização, mas, sobretudo, as práticas de gestão pouco claras, ou mesmo francamente perversas, que se constituem em uma autorização implícita às atitudes perversas individuais”. O desprezo pelo outro é o primeiro passo no sentido do assédio. Um clima de assédio moral só poderá prosperar efetivamente a partir do cinismo e da indiferença do sistema organizacional.

O assédio moral pode ter graves consequências jurídicas para quem o pratica sistematicamente, pois há previsão legal sobre essa matéria no Brasil. Há ainda repercussões negativas na qualidade do que se produz nas organizações. Afinal, quantas organizações têm programas vigentes de prevenção e combate ao assédio moral no Brasil?