As pesquisas de opinião têm registrado entre nós uma grande e persistente preocupação social com o complexo fenômeno da violência e as sensações sociais difusas de insegurança pública. Em “A arte de reduzir as cabeças”, editado pala Companhia de Freud, o filósofo Dany-Robert Dufour, professor da Universidade de Paris VIII, traz reflexões instigantes sobre essa questão.

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Segundo pondera o professor, “a pós-modernidade institui um outro tipo de espaço, o espaço mutante. Tudo nela se torna flexível, inclusive os valores” e “o laço social se dispersa em uma multidão de socialidades, cada uma possuindo suas próprias fixações referenciais”. A fluidez da pós-modernidade vem gerando consequências psicossociais negativas nas vidas humanas. Para Dufour, trata-se do declínio das neuroses de transferência em proveito das psiconeuroses narcisistas. Nesse sentido, as perversões se estabelecem efetivamente como uma estratégia no complexo jogo social.

Onipotência (sucesso) e impotência (fracasso) definem o sujeito pós-moderno. Uma variante dessa questão é a violência expressa na forma de gangue. De acordo com Dufour, “a gangue é um bando que teve êxito, ao impor seus métodos expeditivos. Os estabelecimentos escolares de zonas difíceis estão particularmente expostos à conversão dos bandos em gangues”. Diversos tipos de gangues costumam atuar das mais diversas maneiras nas organizações. O filósofo destaca o processo de dessimbolização dos indivíduos promovido pelo novo capitalismo como consequência da erradicação do componente cultural nas trocas.

Dufour afirma que “não é surpreendente, pois, que o nosso espaço social se encontre cada vez mais invadido pela violência”. Nos ambientes de trabalho, o assédio moral merece uma maior atenção por parte das organizações brasileiras porque há previsão legal entre nós para quem o pratica sistematicamente. A perspectiva da lei do mais forte promovida pelo novo capitalismo produz sujeitos precários. Nesse sentido, a governança neoliberal é o não governo.

Citando Hannah Arendt, o professor enfatiza que “todo enfraquecimento do poder é um convite à violência” e, portanto, há a expectativa no horizonte de vivermos uma espécie de tirania sem tirano. A solução passa pela ressimbolização e pela recuperação da dignidade humana do sujeito precário, afinal, Lacan afirmou certa vez que o inconsciente é a política, na medida em que o Outro organiza o espaço social em que o sujeito se produz.