Uma sondagem recente do Datafolha apontou que 62% dos brasileiros entre 16 e 24 anos desejam viver no exterior. A metade dos entrevistados entre 25 e 34 anos quer morar fora. Em síntese, quanto mais alta a classe social do indivíduo, maior é o desejo de morar em outro país. O quadro presente é complexo e, portanto, sua explicação requer uma análise cuidadosa.

Reli recentemente um livro da coleção “Para ler Freud”, editada pela Civilização Brasileira. O livro em questão foi escrito pela professora Nina Saroldi e versa sobre o clássico “O mal-estar na civilização”. Segundo ponderou Saroldi, passamos pelo processo de transição da renúncia e do sacrifício pulsionais em nome do bem-estar coletivo para o contexto da importância do prazer (gozo irrestrito), da diversão e da leveza dos relacionamentos. Vivemos muitos sofrimentos causados pelo excesso de virtualidades.

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Diferentemente do tempo da publicação do texto de Freud, em 1930, a civilização não se sustenta mais sobre o sacrifício pulsional individual realizado em nome da segurança coletiva. Para que a ordem civilizada se imponha, são necessários compromissos frequentemente renegociados por todos, ressalta Saroldi, pois a barbárie sempre paira como ameaça. Em tempos de busca pelo gozo a qualquer preço, a noção de norma se torna vaga, sujeita a revisões e debates capazes de aniquilar o seu sentido.

No mundo do trabalho, fala-se muito em flexibilidade. De acordo com Saroldi, “se a sociedade da produção precisava de um supereu que barrasse o gozo manipulando a culpa, a sociedade de consumo precisa de um supereu que incite o gozo ilimitado e que, por isso mesmo, não pode ser satisfeito por nenhum objeto possível”. Nesse sentido, a ordem de sentir prazer em cumprir o dever se confunde com o dever de sentir prazer.

O mal-estar contemporâneo inclui problemas sociais de depressão, um misto de desinteresse pelo mundo com descrença em si mesmo. Entre as características dessa depressão, deve-se destacar uma estreita relação com a insegurança e o risco do desemprego. Desigualdades sociais, afirma Saroldi, “não podem crescer indefinidamente sem que a pulsão de morte ganhe a batalha contra as pulsões de vida”. Em carta a Einstein, Freud argumentou que o único caminho alternativo à modificação da sociedade pela violência é a modificação cultural de seus membros. Essa não seria uma sociedade perfeita, mas provavelmente uma coletividade com maior capacidade para o trabalho e o amor.