Em um instigante ensaio publicado no jornal “Folha de S.Paulo” (01/07/2018), o historiador Rafael Cariello traz reflexões oportunas sobre como a concentração de poder na política esvazia o interesse pela vida democrática. Sintetizando o seu argumento, “ao concentrar poder nas mãos de poucos, o sistema afasta os cidadãos e produz falta de compromisso com a coisa pública” (aqui o artigo).

O mal-estar político do presente possui raízes profundas, pois seria bem espantoso se os brasileiros não se sentissem alienados das decisões que lhes dizem respeito. Citando Quentin Skinner, um renomado historiador das ideias, Cariello aponta a relevância da participação dos cidadãos na vida pública e o cultivo do espírito cívico. Em relação ao Brasil, ele afirma que “a República, quando veio a ser desejada como alternativa à monarquia e depois proclamada, já tinha um sentido político bem mais restrito”. Nesse sentido, a palavra República continua soando oca entre nós e os seus reflexos se manifestam também nas organizações.

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A desconfiança brasileira generalizada tem aparecido em pesquisas internacionais, como é o caso do World Values Survey, um projeto de pesquisa que compara crenças e valores em quase cem países. Infelizmente, os brasileiros desconfiam também dos valores democráticos, segundo vem apontando o Latinobarómetro. Apesar desse preocupante quadro de desconfiança generalizada, muitos cientistas políticos afirmaram que o sistema político brasileiro, para o bem ou o mal, funcionava, pois gerava resultados previsíveis e garantia a governabilidade.

Para Cariello, o sistema político brasileiro “proporciona governabilidade, é verdade, mas o custo desse bom funcionamento tem sido a concentração de poder em poucas mãos, mesmo depois da transição democrática”. Embora possa até ser considerado democrático, o sistema político brasileiro é pouco republicano. Sobre as unidades federativas, Cariello aponta que “freios e contrapesos que bem ou mal funcionam na esfera federal — entre eles o controle exercido pelo Judiciário e por órgãos como o Ministério Público — raramente chegam a limitar ou constranger a atuação dos governadores”.

No problemático quadro federativo descrito pelo historiador, será que os cidadãos estão mesmo bem representados? Sua resposta é de que seria muito espantoso se os cidadãos brasileiros se sentissem representados e interessados por um sistema político que faz de tudo para mantê-los à distância.