Em um instigante livro publicado neste ano, “Valsa brasileira”, a economista e professora Laura Carvalho faz uma boa síntese do momento brasileiro. As repercussões das escolhas políticas feitas nos últimos anos afetaram as vidas das pessoas, incluindo o dramático empobrecimento das famílias. Do boom aos caos parece descrever bem o sentimento popular entre nós.

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De acordo com a professora, a partir de 2004, a “expansão inicial foi liderada pelo boom de exportações, criado pela maior demanda mundial por nossos produtos”. Contrariando a argumentação neoliberal, que possui algum eco no Espírito Santo, tal crescimento não pode ser atribuído à política econômica doméstica. Esse processo permitiu uma pequena melhoria na distribuição funcional da renda do trabalho até 2013.

Como desdobramento desse processo, Carvalho pondera que “o maior uso de mão de obra menos qualificada é uma característica dos setores de serviços que cresceram muito nesse período, tais como restaurantes e salões de beleza”. Esse também foi o caso da construção civil. À medida que crescia a demanda por trabalhadores menos qualificados, mais esses trabalhadores ganhavam poder de barganha. Houve a inclusão social pelo mercado de trabalho e inclusive a expansão do crédito, mas a produtividade da economia não se beneficiou desse modelo.

A recessão brasileira iniciou-se no segundo trimestre de 2014, um fato bem noticiado na imprensa naquele momento. Infelizmente, as opções políticas de então fizeram com que os investimentos públicos virassem a variável de ajustes fiscais contracionistas. Políticas sociais, quando mais eram necessárias, também foram vítimas dessas opções. Um ajuste macroeconômico contracionista, tendo em vista a carga tributária regressiva brasileira, só poderia mesmo agravar a situação das pessoas menos abastadas. Muitos negócios foram afetados pelas vias da queda do consumo.

Entre as lições a serem tiradas dos últimos anos, Carvalho destaca que “um processo de crescimento com dinamismo do mercado interno exige uma política industrial voltada para a diversificação da estrutura produtiva”. A oferta deve acompanhar o dinamismo da demanda para evitar constrangimentos nas contas externas. Oura lição diz respeito ao uso dos investimentos públicos para fins de políticas anticíclicas. Afinal, o seu efeito multiplicador, algo que induz gastos privados, costuma ser maior em tempos de recessão do que em momentos de crescimento.