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Na última terça-feira, dia 04 de setembro de 2018, participei da mesa sobre as causas do baixo investimento no Brasil, no XV Fórum de Economia do Centro de Estudos do Novo Desenvolvimentismo (CND), organizado pelos Prof. Bresser Pereira e Nelson Marconi.

Apoiei-me nas brilhantes apresentações do Prof. José Luís Oreiro (UnB) e Mário Bernardini (ABIMAQ), que me precederam com exposições teóricas e empíricas abrangentes sobre os principais determinantes de nossa baixa capacidade de investimento, bem como uma proposta para ampliar o incentivo ao investimento no Brasil (discutiremos este tema em outra ocasião).

Apresentei, por minha vez, uma leitura do problema do investimento desde a perspectiva dos teóricos clássicos do desenvolvimento (ppt aqui). Partindo de um modelo Furtado-Myrdal-Kaldorde causação circular cumulativa que situa a nossa baixa propensão ao investimento na complexa interação das nossas dotações naturais de recursos e a estrutura produtiva e as instituições econômicas desenvolvidas pelas nossas elites dirigentes.

Estas investem menos de 40% da sua renda (conforme linha azul do gráfico abaixo), revelando sua forte orientação para o consumo presente(miopia) e sua elevada aversão ao risco. Tais comportamentos já “culturalizados” resultam da articulação específica do trinômio dotação de recursos / estrutura produtiva / instituições econômicas.

Figura 2

 

O Modelo de Economia Brasileira desde os anos 1990

O resultado das políticas de abertura comercial e financeira dos anos 1990 nos legou uma inserção internacional passiva, em que vendemos ao mundo o que nos é mais fácil e mais barato: produtos de baixo conteúdo tecnológico, conforme gráfico abaixo (link original, p. 13).

Figura 3

Com isso, a economia brasileira foi concentrando sua estrutura produtiva e sua pauta de exportações em setores não industriais, como agropecuária e serviços, setores em que há, em média, menor sofisticação tecnológica e empregos de menor qualidade e menor produtividade. Esta desindustrialização da economia inibe o acionamento dos motores do progresso tecnológico que geralmente acompanham o investimento em máquinas e equipamentos, bem como coloca o país numa rota de longo prazo de apreciação cambial (a chamada Doença Holandesa).

O crescimento econômico brasileiro fica então parecendo o movimento dos golfinhos: dá saltos periódicos, mas rapidamente submerge.

 

Volatilidade do Investimento e Propensão ao Risco

A volatilidade do investimento que se observa em países assim dificulta a formulação de projetos de investimento de longo prazo, os quais requerem uma estabilidade maior do produto e de preços macroeconômicos (como inflação, taxa de juro, taxa de câmbio, taxa de lucro e taxa de crescimento dos salários).

Paralelo a este processo de transformação produtiva, observa-se na nossa economia uma estrutura assimétrica e desigual de proteção ao riscoque herda aspectos do passado inflacionário, impedindo o desenvolvimento do mercado de capitais (como tratei neste textocom dois co-autores) e, como argumentei neste trabalho, inibindo a consolidação de um setor de investimentos produtivos de longo prazo no Brasil.

A presença de títulos de dívida pública como LFT e NTN-B geram uma estrutura distorcida de risco e retorno, oferecendo retornos polpudos pela manutenção de títulos financeiros com risco zero. Em contrapartida, setores reais da economia gozam de uma estrutura de proteção muito menor. Chama a atenção o setor industrial que conta com a menor cobertura de riscos dentre os setores analisados.

Estes setores reais têm seus projetos de investimentos inviabilizados, não apenas por uma taxa de juros elevada, como pela possibilidade de carteiras de ativos livres de risco com retorno superior.

Figura 1

 

Racionalidade vs. Funcionalidade

Dada esta estrutura de incentivos, é racional que a elite econômica se proteja dos riscos inerentes ao investimento produtivo, aplicando seus recursos em dívida pública. A racionalidade neste caso implica, entretanto, no estreitamento do horizonte de planejamento do setor privado, o que é disfuncional ao desenvolvimento econômico.

Dada a histórica rigidez da estrutura de gastos do Estado (em que é flagrante a disputa por rendas posicionais incontestáveis e que rapidamente tornam-se direitos adquiridos), variações no ritmo de crescimento implicam ciclos de receitas públicas que, periodicamente, levam o Estado a elevar o seu endividamento, reforçando a atratividade da dívida pública perante as alternativas, via elevação da taxa de juros. Neste esquema de valorização, a apreciação cambial engrossa os retornos.

Por isso, é tão difícil no Brasil que a elite questione os limites e os efeitos colaterais o regime de metas de inflação, haja vista ser ela sócia majoritária do mesmo. Este arranjo controla a inflação por meio de uma apreciação da taxa de câmbio, que penaliza os setores industriais em prol dos setores protegidos dos efeitos das variações cambiais.

 

Uma Questão Institucional

É importante destacar que não se trata de fulanizara questão. Eu mesmo faço parte desta elite que se aproveita deste arranjo. Este é um processo social, dependente de trajetória, de políticas adotadas no passado, quando sua adoção detinha apoio das forças sociais.

Entretanto, sem a alteração desta estrutura distorcida de risco e retorno, os investimentos não retornarão e, sem ele, a saída desta crise será muito mais difícil e muito mais lenta. 12 milhões de desempregado e mais 4 milhões de desalentados têm muita pressa.