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A candidatura Bolsonaro vai se consolidando como forte concorrente à vitória no pleito que se aproxima. O medo que acompanha este resultado já extrapolou as fronteiras nacionais e já provoca reações da imprensa tradicionalmente liberal, como Washington Post, e o mais progressista New York Times. Nesta semana, a revista The Economist, esta última um histórico bastião do liberalismo britânico, estampa o candidato em sua capa, definindo-o como “a mais recente ameaça na América Latina“.

Bolsonaro se apresenta como um “liberal”, uma alternativa radical ao pensamento de esquerda, que ele resume como sendo o “lulopetismo”. Como sempre, do lado de baixo do Equador, as leis, os rótulos e as práticas são diferentes. Seu liberalismo é um tanto capenga, com pitadas de estatismo, a depender do dia e do humor do candidato.

A despeito disso, amplos setores da sociedade, comprimidos no centro do espectro político, já se mobilizam para tentar impedir o avanço de Bolsonaro rumo ao Planalto, pelos claros traços de autoritarismo que sua chapa carrega. Vários movimentos de repúdio brotaram nas redes sociais, como o #EleNão ou #MulheresContraBolsonaro e vários outras manifestações de grupos contra o avanço desta candidatura.

Na literatura de ciência política, dá-se o nome de “barreira à entrada” (gatekeeping) a este processo de bloquear o acesso de políticos demagogos e populistas (outsiders, ou aqueles considerados não-políticos) por meio de coalizões entre os grupos mais próximos ao centro do espectro político. Quem aponta isso é o autor do livro “Como as democracias morrem“, Steven Levitzky, aqui nesta reportagem. Segundo ele, a emergência de Bolsonaro tem causas diversas e fazem parte de um movimento global de fortalecimento das forças conservadoras. No entanto, ele aponta uma importante causa recente que, na sua visão, acelerou a ascensão eleitoral de Bolsonaro:

Vocês enfrentam ao mesmo tempo uma tremenda crise econômica e a pior crise de corrupção que já se viu numa democracia. É uma tempestade perfeita. Em momentos assim é muito comum a aparição de populistas que prometem limpar o sistema, combater a classe política. Resulta atrativo para a população. O desafio do Brasil é sobreviver à tormenta sem eleger um autoritário.

 

O Fenômeno Bolsonaro

A candidatura Bolsonaro é um produto do nosso subdesenvolvimento socioeconômico e das tensões ainda existentes entre o urbano interiorano e as metrópoles.  Nossa sociedade repleta de desigualdades e conflitos sociais – silenciosos e violentos – é terreno fértil para a aparição de toda a sorte de “salvadores da pátria”, à direita e à esquerda. Como o tema é por demais complexo, quero salientar apenas duas dimensões sociais que podem nos ajudar a compreender o apoio que Bolsonaro vem recebendo.

A primeira está na ausência do Estado em várias partes carentes do país. Estes são os esquecidos que vêem em Bolsonaro a libertação quanto às amarras que os impedem de se proteger do crime que prospera com o aval de agentes de estado. Enquanto isso, milícias, narcotráfico e a corrupção ventilada pela imprensa não indicam qualquer possibilidade de mudança. Afinal, o Bolsa Família ajudou a colocar a criança na escola e a aliviar a fome, mas não resolveu o problema das bocas de fumo Brasil afora.

A posse facilitada da arma de fogo causa uma sensação de segurança que equilibra a desigualdade no poder de fogo com a criminalidade. Ainda que seja apenas uma sensação de segurança, Bolsonaro pelo menos atende a este anseio. Ele levanta o moral de quem não aguenta mais sofrer na mão de bandido.

A segunda dimensão tem a ver com nossa elite econômica, que se tornou mais diversificada com o governo Lula. Ela cresceu numericamente, com muitos novos ricos passando a integrar aquele clube muito exclusivo dos 3% por meio do seu próprio esforço, esperteza, inventividade ou mesmo muita sorte ou ainda por ter amigos importantes que lhes abriram portas (sem mencionar a boa e velha corrupção).

Ao chegarem ali, recebem as mesmas notícias de corrupção que sangram os cofres públicos. Sabem que alguém terá de pagar por aquilo e já aprenderam que carga tributária é sempre alta, em qualquer lugar do mundo, principalmente se você é rico. A consciência de classe se consolida e sente-se legitimado por seus pares ao reclamar dos impostos: nenhum rico jamais receberá de volta na forma de serviços públicos de qualidade o que ele paga ao Estado na forma de tributos.

A conta não fecha no topo da sociedade: para quê pagar SUS se eu já pago plano de saúde? “Eu conquistei minha mansão e minha fortuna e agora vêm estes caras que tem estabilidade no emprego e 1 milhão de privilégios e querem taxar a minha fortuna e impedir-me de dar aos meus filhos as condições que eu nunca recebi do Estado? Nem a pau, Juvenal!”

Bolsonaro chega e diz: eu vou tirar o Estado da sua vida. Vou tornar a economia liberal: seu esforço, sua recompensa. Catchin! Depois destas palavras, toda e qualquer questão identitária, de respeito às instituições, de tolerância à diversidade desbota na cabeça do eleitor.

Ouço com frequênica: “quem se interessa se ele não gosta de homossexual ou de cotas? Eu nunca tive cota mesmo. Eu quero é mesmo que ele ganhe pra que o Estado me deixe em paz.” A volta da ditadura militar não ameaça tanto; afinal, a democracia nem chega mesmo nestes lugares mais distantes.

Há ainda um sentimento difuso, por parte destes grupos sociais, de desprestígio aos olhos das classes médias metropolitanas. Algo muito parecido ocorreu nos EUA com a eleição do Trump. As populações de cidades interioranas que convivem em alguma medida com os dois extremos que pontuei acima, sentem-se ressentidas com o que enxergam ser uma postura de superioridade cívica e intelectual das populações metropolitanas (socialistas de iPhone ou engomadinhos da Berrini) em ditar ao interior o caminho certo para a nação: os pobres, por que não se sentem representados pela agenda dos partidos (vide a derrota fragorosa de Haddad em SP e Freixo no RJ); já os novos ricos se ressentem, porque construíram sua riqueza em condições muito piores que “os burguesinhos, filhinhos de papai, da cidade grande” e se sentem aviltados com a “bandalheira” cotidianamente noticiada pela imprensa.

Estes dois exemplos caricaturais (há variações sobre o tema) podem lhe parecer simplórios e insuficientes para definir o voto. No entanto, eles se aglutinam numa força política abrangente que, se não diluída em outras opções democráticas, pode acabar viabilizando o pleito de Jair Bolsonaro ao cargo maior da nação.

Uma Alternativa num Jogo de Cartas Marcadas

Se houver qualquer razão nestes pontos levantados, não é difícil entender como Bolsonaro pode oferecer um nivelamento do jogo desigual, entre as populações protegidas pelo Estado das grandes cidades e o abandono sofrido pelo interior do país ou pelas periferias das grandes cidades.

O ódio que emana de seu discurso – e que “fere firme e dói que nem punhal”, no dizer do poeta -,  emerge do abandono, da invisibilidade e do desprestígio social encontrou em Bolsonaro uma válvula de escape.

Ao nos distrair com sua postura proto-fascista e seus preconceitos e lugares-comuns, ele consegue obscurecer o arranjo de forças políticas que o guia dos bastidores e, ao fazer isso, arregimenta um eleitorado que não necessariamente coaduna com os seus valores, mas acredita que ele pode encarnar a mudança radical necessária para aliviar a insatisfação do povo, apesar do vazio programático de sua plataforma.

O alerta que vem com a emergência do fenômeno Bolsonaro precisa ser confrontado para que o ressentimento e a violência não cresçam nas sombras e transbordem pelas frestas das nossas desigualdades.

João Filho deu uma dica de como expor a “nudez do rei”: basta fazer perguntas específicas sobre o país que ele pretende governar. Seu despreparo técnico e a vagueza das propostas certamente não mudarão a opinião de quem compartilha dos valores de Bolsonaro, mas poderão deslocar a parcela que segue suas promessas econômicas. Se isso acontecer, já será uma vitória a mais para a democracia.