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Tenho acompanhado a angústia de muitas pessoas frente à polarização política do país desde as eleições de 2014. É cada vez maior o contingente de pessoas que não mais se identificam com sua rede de relações sociais. Pode parecer uma questão secundária, mas a identidade é fundamental para uma boa vida psíquica. Dos dois lados, a frustração e a decepção parecem lentamente romper os laços afetivos tão essenciais para a troca de ideias e para o aprimoramento mútuo.

Não pretendo ter imparcialidade. Neste post (publicado em minha página do FB no primeiro trimestre de 2018) dirijo-me àqueles e àquelas (cada vez menos numerosos em minha página) que partilham do núcleo de minha visão de mundo (ainda que com discordâncias temáticas localizadas).

Se você me acha mortadela, petralha, petista, ou simplesmente burro e ignorante, sugiro que pare por aqui. Se você entende que o assassinato de Marielle Franco é apenas a politização de um “cadáver comum” e que Bolsonaro é a solução simples para nossos problemas mais complexos, duvido que tenha chegado até aqui. Mas se chegou, talvez valha a pena se aventurar nas palavras abaixo. Pode ter algo que lhe sirva para relativizar sua visão de mundo, mesmo que parcialmente.

A você que tem ficado repetidamente perplexo(a) com as reações dantescas de seus familiares (principalmente aqueles que orientaram a sua formação com valores muito diferentes dos que eles hoje pregam) e de seus amigo(a)s com relação, por exemplo, ao caso Marielle Franco, ofereço a leitura que Jessé de Souza faz das “frações da classe média” em seu livro mais recente, “A elite do atraso: Da escravidão à Lava Jato”.

 

“Por que isso me ajudaria? Não tenho tempo para isso!”

Quando uma realidade tem várias camadas e muitas sutilezas, mas temos dela uma visão simplificada, unificada e homogênea, os eventos tendem a gerar contradições e inconsistências com aquele esquema básico de interpretação. E quando esta visão da realidade ancora nossa identidade social – isto é, como nos situamos política, ética e afetivamente no mundo -, conhecê-la um pouco melhor pode aliviar tensões, reduzir a reatividade e – quem sabe? – desinterditar o debate, principalmente em momentos como o atual, em que a união em torno dos princípios básicos que nos tornam humanos precisa ser defendida.

Fiz uma colagem comentada de alguns trechos do segundo capítulo do livro. Por isso, duas advertências são necessárias: (1) não concordo totalmente com Jessé em suas colocações, mas reconheço a importância do debate que ele levanta; por isso, minha sugestão de leitura não representa validação irrestrita de suas ideias; (2) a leitura dos trechos abaixo não substitui a leitura integral do livro; trata-se apenas de um resumo que possa acalmar preliminarmente a angústia recente causada pelo florescimento ostensivo de forças antidemocráticas neste pleito presidencial. Como resultado, gostaria de estimular o estudo e a leitura, para que consigamos encontrar formas não-violentas de interagir com que pensa diferente de nós.

Dito tudo isso, peço perdão pela extensão do texto para um espaço como este. Infelizmente, a realidade é mais complexa do que desejamos.

Resultado de imagem para a elite do atraso

 

A classe média e suas frações

Jessé pergunta: “Qual a especificidade da classe média? Quais os modos mais adequados para lhes falar à mente e ao coração? Quais seus medos específicos? Quais seus desejos particulares?”

Sua resposta preliminar é:

O mais importante aqui é perceber como cada classe legitima sua vida e sua ação no mundo. Como a classe média é uma classe intermediária, entre a elite do dinheiro, de quem é uma espécie de “capataz moderno”, e as classes populares a quem explora, ela tem que se autolegitimar tanto para cima quanto para baixo.

Jessé nos leva a “diferenciar quatro nichos ou frações de classe na classe média”. As diferenças se devem ao “tipo de capital cultural” que é “apropriado seletivamente pelas respectivas frações, construído pelas socializações familiar e escolar distintas”. Vamos a eles: “fração protofascista, fração liberal, fração expressivista, que costumo apelidar de “classe média de Oslo”, e a menor fração de todas, a fração crítica.” A seguir, uma brevíssima descrição e, em parênteses, a parcela de toda a classe média de cada categoria:

1) Fração Expressivista (“classe média de Oslo”) (20%): Esta aqui é a típica vítima de MBL e afins, os “socialistas de iPhone”: “Tudo se dá como se esse pessoal bem-intencionado morasse em Oslo e tivesse apenas relações com seus amigos de Copenhague e Estocolmo, acreditando, ao fim e ao cabo, que mora na Escandinávia e não no Brasil. Para um sueco que efetivamente resolveu os problemas centrais de injustiça social e distribuição de riquezas, não é estranho que se dedique à preservação de espécies raras e faça dessa luta sua atuação política principal. Que um brasileiro faça o mesmo e se esqueça da sorte de tantos seres humanos tão perto dele é apenas compreensível se ele os torna invisíveis.”

2) Fração Crítica (15%): “O mundo social é percebido como construído, o que enseja também uma atitude mais ativa em relação a ele. Essa atitude básica se contrapõe à percepção do mundo como dado, como uma natureza sob outra forma, em relação à qual é preciso se adaptar. A forma de adaptação mais comum é se sentir pertencendo a correntes dominantes de opinião. A pequena fração crítica tem que navegar em mares turvos, já que em luta constante contra a corrente dominante. Ela mostra a dificuldade de se chegar a formas de liberdade pessoal e social e de autonomia real no contexto de uma sociedade perversa e repressiva. Por conta disso, ela também é prenhe de contradições como todas as outras frações.”

Se você chegou até aqui, é bem provável que você esteja em alguma das categorias (ou mesmo nas duas) acima. Vamos à parcela dominante, que acaba gerando as emoções de que falamos no início.

 

As classes médias dominantes

Os 2/3 das classes médias são aqueles que preocupam o autor, pelo seu peso na opinião pública: “O maior desafio aqui não é simplesmente cognitivo, mas de natureza emocional. Procura-se, para evitar a incerteza e o risco, a segurança das certezas compartilhadas. São elas que dão a sensação de tranquilidade e certeza da própria justeza e correção. Andar na corrente de opinião dominante com a maioria das outras pessoas confere a sensação de que o mundo social compartilhado é sua casa”.

Jessé vai além e levanta uma hipótese para a convicção tão profunda e emocional: “Essas são as frações mais suscetíveis à imprensa e a seu papel de articular e homogeneizar um discurso dominante para além das idiossincrasias individuais. O que a grande empresa de imprensa vende a seu público cativo é essa tranquilidade das certezas fáceis, o que torna o moralismo cínico da imprensa – que nunca tematiza seu próprio papel nos esquemas de corrupção – o arranjo de manipulação política perfeito para esses estratos sociais. É esse compartilhamento afetivo e emocional, já advindo da força da socialização familiar anterior, que faz com que essas pessoas procurem o tipo de capital cultural mais afirmativo da ordem social.”

No meu ver, este tipo de convicção carregada de moralismo parece, não surpreendentemente, cativar de forma mais magnética pessoas de gerações mais antigas, em que os valores religiosos eram mais determinantes para a formação da sua identidade pessoal. Em geral, segue Jessé, tais pessoas adotam “um discurso homogêneo e totalizador que permita a defesa de suas opiniões, e generalizado e compartilhado o suficiente para lhes dar as certezas de que tanto precisam. O conforto aqui é aquele que legitima a vida tradicional e afirmativa do mundo. A tranquilidade de se estar no caminho correto, correção esta que não é por definição uma descoberta pessoal e arriscada, mas sim aquela que se percebe correta porque se tem a companhia da maioria”.

3) Fração Liberal (35%): “Para o liberal, os rituais da convivência democrática são constitutivos, ainda que possa ser convencido das necessidades de exceções no contexto democrático. Ele é o tipo de classe média que se sente enganado, hoje em dia, pela propaganda do golpe vendido como combate contra a corrupção. As exceções da ordem democrática não se reverteram em mais democracia como ele, no nível consciente pelo menos, legitimava seu apoio ao golpe.”

4) Fração Protofascista (30%): “O protofascista, que, na verdade, se espraia da classe média para setores significativos das classes populares, é bem diferente. O golpe lhe trouxe o mundo onde pode expressar legitimamente seu ódio e seu ressentimento. O ódio às classes populares é aqui aberto e dito com orgulho, como expressão de ousadia ou sinceridade [ARC: por isso, muitas vezes pessoas das classes de baixa renda podem manifestar esta forma de pensamento, por não se identificarem com a “ralé”, categoria criada por Jessé em outro livro]. O protofascista se orgulha de não ser falso como os outros e poder dizer o que lhe vem à mente. O mal e o bem estão claramente definidos e o bem se confunde com a própria personalidade.

Mais ainda. Como nunca aprendeu a se criticar, o protofascista tem uma sensibilidade à flor da pele e qualquer crítica aciona uma reação potencialmente violenta. Assim, qualquer crítica é percebida como negação da personalidade como um todo, pela ausência de qualquer distanciamento em relação a si mesmo, gerando uma violência também totalizadora.”

Espero que esta categorização (cuja tentativa é sempre imperfeita e provisória) os ajude a entender que não se trata apenas de “entendimento” racional. Há emotividade e auto-percepção envolvidas aqui, o que torna o debate de ideias menos trivial e mais inflamável. Por isso, é importante proteger nossas emoções contra a rápida degeneração da afetividade e, principalmente, da empatia. A vigilância quanto a isso pode nos ajudar a nos aproximarmos com mais cautela dos temas mais espinhosos, com abordagem mais amigável e menos depreciativa a quem esposa o tipo de pensamento acima.

Isso não significa que tais pessoas vão mudar de opinião. Mas, se permitir que você não perca sua estabilidade emocional ou sua paz interior, acredito já haver um ganho, por menor que seja. Boa reflexão e boa semana!